CRÍTICAS ESTREIAS

A Odisseia de Alice: Apetite carnal

Alice (Ariane Labed) namora Felix (Anders Danielsen Lie), um cartunista norueguês completamente apaixonado por ela. O sexo é ótimo e o relacionamento vai bem. Ela lamenta quando é escalada para trabalhar no navio de carga Fidelio, e como engenheira que é vai cuidar do maquinário dessa embarcação como a única mulher a bordo. A missão deve durar um mês, mas Felix se prontifica a esperá-la. Tudo certo. Mais ou menos, pois Alice não demora a descobrir que o capitão do navio é Gaël (Melvil Poupaud), seu primeiro amor.

Uma sinopse assim pode até indicar um romance adocicado e novelesco, mas não é o caso. Dirigido pela estreante Lucie Borleteau, que coassina o roteiro com mais duas autoras, A Odisseia de Alice traça um retrato realista e sem meias palavras de uma mulher moderna e liberada, cujas ações devem suscitar variados julgamentos morais do público. Porque para Alice, o sexo é natural como respirar, e fidelidade não faz parte do seu cardápio.

Seu corpo funciona como as máquinas que ajusta com suas ferramentas. Se alguma parte precisa de óleo, ela fornece. Alice é destemida, não se acanha por estar rodeada por homens em alto-mar. Ao contrário, flerta, joga charme, mata a saudade do seu capitão e mostra o lado macho quando um colega saidinho avança o sinal sem permissão.

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Alice é novidade como personagem. Raro ver uma mulher tão cheia de si, e ao mesmo tempo de aparência tão doce e delicada. Essa face sensível emerge mais quando está sozinha, perdida em pensamentos, na inquietude por não saber barrar seus instintos, e por sofrer por provocar o sofrimento do namorado. Sim, porque Felix vai se posicionar quando desconfia do comportamento dela no reencontro.

Outro foco da narrativa, bem mais intimista, é o contato de Alice com seu predecessor, o funcionário que morreu a bordo, a quem substitui, e cujo diário ela encontra e começa a ler. Ao passear pelas palavras daquele homem cuja trajetória é tão distante da sua, Alice toma consciência das idiossincrasias desse bicho estranho que é o ser humano.

Alice rendeu a bela Ariane Labed o troféu de melhor atriz no Festival de Locarno 2014, assim como indicação ao César de atriz promissora. A cineasta Lucie Borleteau também ganhou sua cota de prêmios. É uma dupla a se observar.

Cotação: ***

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