CRÍTICAS ESTREIAS

Animais Fantásticos e Onde Habitam – Os Crimes de Grindelwald: Revelações do passado

Em sua primeira viagem para a escola de magia de Hogwarts, Harry Potter abre um sapo de chocolate e lê no cartão que acompanha o doce que o professor Alvo Dumbledore é famoso por ter enfrentado o bruxo Grindelwald em 1945. Assim, sabemos que é para lá que se encaminha a história de Animais Fantásticos e Onde Habitam, série derivada de um livrinho (menos de 50 páginas) escrito por J.K. Rowling para arrecadar fundos para a caridade em 2001.

No papel, apenas uma lista de criaturas, no cinema, a história ganha contornos épicos que serão explorados em cinco filmes. É uma proposta tão arriscada quanto foi transformar O Hobbit em três filmes – extensão desnecessária para a história. A menos que a escritora, agora como roteirista, segure as rédeas de sua prodigiosa imaginação e mantenha o curso, essa uma receita para o desastre, mesmo que o resultado financeiro dos cinco filmes seja superlativo.

Bem mais sombrio que o primeiro filme, o segundo longa da série parte logo após os eventos da produção anterior. Preso pelo governo mágico dos Estados Unidos, Grindelwald (Johnny Depp) será transferido para os britânicos em uma operação cercada da mais alta segurança. Não é um spoiler dizer que o vilão escapa de seus captores, dando início à trama que, apesar dos Animais Fantásticos no título, traz bem menos criaturas que seu antecessor e muito mais dramas pessoais.

Com um toque da famosa passagem do caubói sob a carruagem criada pelo dublê Yakima Canutt, a fuga é uma cena de ação frenética que não deve surpreender se for transformada em montanha russa do parque temático dedicado ao mundo potteriano. Somados ao figurino, os efeitos visuais são irretocáveis e formam uma base técnica firme para a trama.

Escalado para o papel de Newt Scamander, Eddie Redmayne segue como o herói relutante, sem interesse pelo poder em jogo, desapego que o torna a figura ideal para enfrentar o mal que se aproxima. Mas o faz com um excesso de trejeitos que se tornam cansativos após algum tempo em cena.

Por sorte, o magizoólogo (especialista em criaturas mágicas) tem de dividir o holofote com o Grindelwald de Depp e mais uma lista de novos personagens. O intérprete do vilão, por sua vez, é sempre eficiente, embora sua dicção em vários momentos traga o Capitão Jack Sparrow de Piratas do Caribe para dentro do universo Harry Potter.

Repleto de fatos e informações, flashbacks, previsões do futuro e digressões em demasia para um único filme, o longa é ambientado nos anos 1920 e acompanha as tensões crescentes que levarão o mundo à Segunda Guerra Mundial. Vivendo sob regras rígidas que exigem que jamais se revelem aos humanos incapazes de mágica, os bruxos formam uma sociedade repleta de descontentes que são terreno fértil para o discurso de Grindelwald.

Carismático e sedutor, ele promete um mundo em que os bruxos, mais do que livres, assumirão o lugar de classe dominante. Para a desesperada Queenie (a ótima Alison Sudol), o quadro é apenas a possibilidade de ser feliz, mas para outros, é a irresistível oferta de um tipo de poder que só nasce da ideia de sentir-se superior em relação aos demais.

No meio disso tudo, Credence (Ezra Miller), o adolescente cheio de poder do primeiro filme, se torna um peão de grande importância no tabuleiro, o que junto com a história de Leta Lestrange (Zoë Kravitz), do próprio Grindelwald e de Dumbledore – um ótimo trabalho de Jude Law – revela o apreço de J.K. Rowling pelos relacionamentos familiares e seus efeitos de longo prazo.

Mas, mesmo com tanta coisa acontecendo, o ritmo é irregular, e como parte de uma grande história que só deve encontrar seu clímax após mais três filmes, Os Crimes de Grindelwald mais arma o cenário para o que está por vir do que elucida algum de seus vários enredos paralelos.

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