CRÍTICAS ESTREIAS

Assassinato no Expresso do Oriente: Poirot cheio de classe

Agatha Christie está entre os autores que atingiram o status de serem conhecidos mesmo por quem nunca leu um de seus livros ou assistiu a uma das muitas adaptações deles para o cinema e a TV. Criadora dos detetives Miss Marple e Hercule Poirot, autora de 66 livros, 14 coletâneas de contos e de A Ratoeira, peça com a mais longa temporada do planeta, em cartaz em Londres desde 1952, a britânica virou sinônimo do “whodunit” ou o “quem foi”. Aquele gênero em que o leitor sente-se feliz ao descobrir o nome do assassino antes que seja revelado, mas considera seu sucesso uma marca da incompetência do autor.

Detalhista, obcecado por ordem em todas as suas formas e manifestações, dono de um bigode com identidade própria, Poirot é um dos mais eficientes solucionadores de crime da literatura. É também perigosamente fácil de tornar-se caricato na tela. Diretor e estrela da refilmagem, Kenneth Brannagh consegue evitar esse resultado. Seu Poirot diverte com suas manias ou as consequências delas, mas não descamba para o exagero. Ele é também menos cínico e mais simpático que o personagem dos livros.

A história encontra o detetive ansioso por alguns momentos de descanso para sua mente constantemente ocupada. A fama de milagreiro na solução de crimes, no entanto, segue arrastando-o de volta ao trabalho, um caso após o outro. Ambientado na década de 1930, o filme recupera o glamour da época, quando o Expresso do Oriente atingiu na vida real o ápice de sua fama de hotel de luxo sobre trilhos.

Na tela, a meio caminho entre Istambul e Londres, o trem tem sua viagem interrompida por uma nevasca e um passageiro é brutalmente assassinado. O isolamento da locomotiva, cercada por montanhas, fornece o ambiente ideal para o mistério. Sem possibilidade de fuga ou da presença de alguém de fora, a única certeza é de que o criminoso está entre os passageiros, um grupo feito para o desfile de coadjuvantes de luxo.

Estão ali Judi Dench, Olivia Colman, Derek Jacobi, Michelle Pfeiffer, Willem Dafoe e a ala jovem representada por Daisy Ridley, Penelope Cruz, Leslie Odom, Josh Gad, Marwan Kenzari, Lucy Boynton e Sergei Polunin. Um grupo bem grande que acaba tendo pouco tempo para se aprofundar e conquistar a atenção do público, restando a Brannagh a maior parte dos holofotes dentro e fora da cena.

Suas câmeras vão ao alto para mostrar o interior apertado das cabines, para as montanhas reforçando o quanto o trem está isolado. Em uma das cenas, os suspeitos são alinhados como uma pintura famosa. O resultado é bonito, interessante, divertido, uma boa sessão de cinema, mas não memorável. No final, Brannagh deixa claro a intenção de voltar a Poirot. Não faltam histórias. E todos sabemos como os estúdios adoram projetos com pouco risco.

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