CRÍTICAS ESTREIAS

Camocim: Briga de torcida no clássico da política

Francês que há quase uma década mora no Brasil, o diretor Quentin Delaroche quis que seu primeiro longa produzido aqui fosse um retrato do cenário de polarização política a qual o país tem visto se acirrar no decorrer dos últimos quatro anos. Nada melhor que pôr a sua lente em foco nas eleições municipais de 2016 em Camocim de São Félix, cidade do Agreste Pernambucano onde se mata por política muito antes do brasileiro, em geral, ser tão passional pelo tema quanto é pelo futebol.

Igual a torcidas organizadas se enfrentando, a população local se pinta de duas cores que delimitam a divisão política ali, que se transforma em rixa social até dentro da própria família, enquanto os clãs que aparentemente rivalizam pela prefeitura em Camocim se alternam no poder, na típica política do “café com leite” que permanece em cidades de várias regiões do país, inclusive no Sudeste.

Na observação documental imbuída de um rigor narrativo quase ficcional, mas que Delaroche consegue transparecer natural ao público, o filme acompanha Mayara Gomes, que na outra eleição municipal votou no candidato do partido vermelho, mas desiludida com o prefeito eleito, agora é cabo eleitoral do amigo César Lucena, que se candidata a vereador pelo partido azul.

Sem denominar os nomes dos partidos e coligações e deixando apenas os números e cores para o espectador ligar os pontos, o olhar microscópico revela que as ideias amplificadoras e rígidas colocadas pelo pensamento de uma classe média urbana sobre uma divisão entre esquerda e direita não é vista, na prática, da mesma forma por uma boa parte da população.

Retrato de um povo brasileiro ambidestro no que diz respeito à política, neste ambiente em que os votos são essencialmente pessoais, já que os candidatos são parentes, amigos, vizinhos, conhecidos, a contabilização de favores atendidos e simpatia pela pessoa é que conta votos em vez dos projetos propostos. Algo que, assim como os jingles ruins, não é exclusividade dessas pequenas cidades como se pode ver e ouvir atualmente nas eleições nacionais e estaduais.

No município em que, como tantos outros, a administração pública e a própria campanha eleitoral movimentam a economia e empregam a maioria de seus habitantes, é o olhar breve para um grupo de jovens que, mesmo trabalhando com isso, anulam o seu voto que traça um paralelo interessante com o idealismo de Mayara.

Se Tempo Perdido virou um clichê para se falar do Legião Urbana, a música aqui cai como uma luva para encerrar esta representação de uma juventude paradoxalmente sonhadora e cética sobre a política brasileira, tal qual a obra em si.

 

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