CRÍTICAS ESTREIAS

Cartas para um Ladrão de Livros: O talentoso Sr. Laéssio

Ao que tudo indica, os realizadores de Cartas para um Ladrão de Livros sempre estiveram conscientes de estarem diante de um tema espinhoso. O documentário conta a carreira criminosa de Laéssio Rodrigues, um dos maiores ladrões de livros raros e gravuras valiosas do acervo de instituições públicas. Apenas mencionar o nome do protagonista é capaz de causar irritação a bibliotecários e outros profissionais que atuam com acervos públicos. Por isso, fazer um filme sobre ele pode soar como provocação ou a exaltação de um criminoso.

A saída encontrada pela dupla de diretores é a transparência. Como anuncia o título, há trocas de cartas entre um dos diretores e Laéssio encarcerado, nas quais por diversas vezes acontece a problematização de como se lida com uma vida de crimes em um documentário sem transformar o protagonista em um herói. A aproximação com o delinquente abre espaço para momentos mais leves e até cômicos nas entrevistas presenciais, sem apostar tanto no inusitado, como feito em VIPs: Histórias Reais de um Mentiroso (2010).

Assim, Cartas para um Ladrão de Livros dedica-se tanto nos delitos de Laéssio quanto em sua vida pessoal. Conhecemos como nasceu sua fascinação por registros antigos por causa de seu amor por Carmem Miranda, sua vida amorosa, suas manias e suas desilusões. A humanização do criminoso é delicada, mas concebível no ambiente de sinceridade construído pela relação diretor-objeto de estudo.

Em seu ato final, a atmosfera honesta se desdobra em um discurso social mais contundente, o maior triunfo do documentário. Laéssio só fez fortuna com o roubo dos itens dos acervos públicos porque havia pessoas dispostas a compra-los. Pessoas ricas, membros da elite. Indivíduos que não sofreram qualquer punição, já que as investigações no Brasil costumam ficar exaustas quando ameaçam tocar pessoas de sobrenomes pomposos. No topo da pirâmide pode-se até atropelar ciclista a mais de 100 km/h.

Com esse toque de consciência social, o longa esquiva-se de acusações de apologia ao crime ou de uma boa carga do mal-estar ético inerente a uma produção desse tema. Um bom exemplo de que o cuidado na abordagem é um caminho para que assuntos complicados sejam expostos.

Publicidade

Deixe o seu Comentário