CRÍTICAS ESTREIAS

A Casa que Jack Construiu: O mal como obra de arte

Quem acompanha a carreira do cineasta Lars von Trier sabe o quanto o dinamarquês é cético em relação ao ser humano. É a face negra da nossa natureza que lhe interessa e filmes como Dogville e Anticristo iluminaram essa obscuridade de espírito com sordidez. Em Melancolia, ele foi além e limou a humanidade do planeta.

Eu já achava que seu pessimismo era um caso médico, e tive certeza quando o diretor lançou os dois volumes de Ninfomaníaca, em que investiga o sexo com doses bizarras de voyeurismo. A Casa Que Jack Construiu é o novo fruto dessa mente doente. A questão é que Lars Von Trier faz cinema com maestria. Então se sua obra é inquietante, desagradável, chocante e polêmica, ela é também exuberante, poderosa e fascinante.

Sua câmera agora está focada em Jack (Matt Dillon), um serial killer da década de 70. Ele narra em detalhes cinco assassinatos para alguém sábio (Bruno Ganz), que pode ser um carcereiro, um policial, Deus ou o Diabo. Isso só se revela ao final.

Jack ganhou uma herança e com ela planeja construir uma casa. A trama entrelaça as mortes com as tentativas frustradas de erguer seu lar ideal. Mas, espere, ele chega lá, da forma mais grotesca possível.

Jack não é um assassino qualquer. É minucioso, inteligente, erudito e – para desespero do público -, criativo. É um artista apaixonado pela própria obra, um artesão que se aperfeiçoa a cada crime e que se dedica ao cuidadoso polimento de suas macabras criações. Ele tem preferência por mulheres (Uma Thurman entre elas), mas homens e crianças estão no cardápio. Seus métodos são crueis e Von Trier é novamente explícito no retrato do horror.

É preciso ter estômago muito forte para suportar esse banho de sangue regado com humor ácido e embalado pelo som de “Fame”, na voz de David Bowie. Por outro lado, A Casa que Jack Construiu é um dos mais belos trabalhos visuais desse esteta que tem domínio total da paleta de cores, das texturas, dos cenários e da fotografia.

Lars von Trier é uma praga. Precisa de tratamento psiquiátrico urgente. Faz a gente sofrer sem dó, e aguardar sua próxima loucura ansiosamente.

 

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