CRÍTICAS ESTREIAS

Corra!: Terror com consciência

Muito se falava do “toque de Midas” de Steven Spielberg, nos tempos em que o cineasta reinava no universo dos blockbusters. Hoje, fenômeno semelhante acontece no cinema independente de terror, com o produtor Jason Blum, o homem que transformou em ouro projetos que nasceram modestos, como as franquias Atividade Paranormal, Sobrenatural e Uma Noite de Crime.

A produtora Blumhouse ainda contabiliza os lucros de Fragmentado – o suspense de M. Night Shyamalan custou US$ 9 milhões e rendeu US$ 270 milhões -, mas já comemora o desempenho de Corra!: a estreia do diretor Jordan Peele foi orçada em US$ 4,5 milhões e bateu os US$ 170 milhões apenas no mercado doméstico.

Há exatos 50 anos, Stanley Kramer dirigiu o polêmico Adivinhe Quem Vem Para Jantar, em que o jovem e culto médico negro interpretado por Sidney Poitier era apresentado ao casal formado por Spencer Tracy e Katharine Hepburn, pais de sua noiva branca (Katharine Houghton).

Corra! parte da mesma premissa, mas os desdobramentos são infinitamente mais sinistros. A história acompanha um final de semana na vida de Chris (Daniel Kaluuya), um fotógrafo afro-americano de Nova York que visita a propriedade campestre da família de sua namorada, Rose (Allison Williams). Missy (Catherine Keener) e Dean (Bradley Whitford) são os simpáticos pais da moça.

A princípio, Chris vê o comportamento exageradamente hospitaleiro como uma tentativa desajeitada de lidar com a relação inter-racial da filha, mas fica instigado com o olhar estranho dos caseiros negros. Esse é o tipo de filme em que uma palavra a mais pode se tornar spoiler, então basta saber que o irmão de Rose, Jeremy (Caleb Landry Jones), dá as caras, que o clã realiza uma festa para honrar a memória dos avós e que o único contato de Chris fora dali é por celular, com seu melhor amigo e agente de segurança Rod (LilRel Howery) – por sinal, o alívio cômico nessa teia de tensão.

Pouco conhecido por aqui, Jordan Peele venceu o Primetime Emmy pelo humorístico Key and Peele e estrela a comédia Keanu: Cadê Meu Cato?!. Fã inveterado do gênero horror e também autor do roteiro, ele conduz o espectador por um labirinto de risadas e sustos, na medida em que solta pistas do mistério que ronda os anfitriões de Chris.

O protagonista, Daniel Kaluuya, tem o timing do terror e outro elemento marcante é o desvio temático. O que se anuncia como um debate padrão sobre o racismo, se revela uma concepção muito mais engenhosa em relação à raça negra. Não dá para perder.

Cotação: ****

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