CRÍTICAS ESTREIAS

Detroit em Rebelião: Estresse total e real

No verão de 1967, a cidade de Detroit virou palco de uma guerra devastadora. O evento manchou a história da capital da indústria automobilística norte-americana. Nos anos áureos, na década de 50, eram mais de 1,8 milhão de habitantes – hoje há menos de 680 mil. O saldo dos cinco dias de distúrbios raciais é assustador: 43 mortos (33 negros), 1189 feridos e cerca de 2 mil edifícios danificados.

Com sua câmera nervosa, a cineasta Kathryn Bigelow percorre as ruas abarrotadas de negros. Alguns gritam palavras de protesto, outros se atracam com policiais, e há também os saqueadores que, imbuídos pela revolta, quebram vidros, invadem lojas e provocam a maior balbúrdia. O caótico cenário dá o tom de Detroit em Rebelião e deixa o espectador em permanente estado de tensão. Essa poderosa mise-en-scène é coisa de mestre.

Quem acompanha a carreira da diretora desde os primeiros sucessos, como Caçadores de Emoção e Estranhos Prazeres, até os mais recentes e aclamados A Hora Mais Escura e Guerra ao Terror (vencedor de seis Oscar, entre eles melhor filme e direção) conhece bem a habilidade de Kathryn para conduzir produções de ação regadas de adrenalina e testosterona.

A partir da arrasadora abertura, que traça um panorama geral do confronto, o filme começa a eleger seus protagonistas, para então reuni-los em um motel, o Algiers, que se torna o microcosmo do que acontece paralelamente nas ruas. Não vale aqui revelar os eventos que levam os membros de uma força tarefa formada por policiais de diversos departamentos a invadir o lugar, frequentado por negros.

Anthony Mackie

O que acontece ali dentro é real. Um absurdo, inconcebível, mas real. Embora o elenco tenha nomes como Anthony Mackie, John Boyega e Will Poulter, não há tempo para investir no perfil psicológico e nem na história pessoal de cada um deles. Nos créditos finais, o espectador vai descobrir o destino dos personagens principais, com fotos e imagens de época.

A reconstituição realizada por Kathryn Bigelow em Detroit em Rebelião é uma aula de cinema. Assim como fez em Guerra ao Terror, a cineasta posiciona de três a quatro câmeras para registrar a movimentação, sem precisar interromper o elenco para captar um close ou uma ação específica. Os atores mergulham na cena com maior liberdade, sem ter de olhar para lá ou para cá. O resultado é uma fluidez que eleva o estresse a níveis insuportáveis. Nesse caso, isso é ótimo.

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