CRÍTICAS ESTREIAS

Diamantino: Sou lindo (e ousado)

A ousadia é uma parceira de dança perigosa, mas por vezes recompensadora. Quando entramos em seu baile, ou se executa passos estonteantes ou… chão. Felizmente Diamantino está no primeiro grupo.

Com claras referências ao mundo real, temos no roteiro um jogador português de futebol (Carloto Cotta, de As Mil e Uma Noites) que é tão talentoso quanto vaidoso. Depois de falhar na final da Copa do Mundo, Diamantino vira motivo de piada global em uma enxurrada de memes. Para espairecer, vai a um iate onde se depara com um bote de refugiados. Dentro de sua redoma, refugiados é ser inexistente, o que faz o atleta ficar sensibilizado e querer adotar um filho refugiado.

Cena do filme Diamantino (2018)

Esse absurdo de sinopse só se desdobra em novos eventos igualmente bizarros, o que faz o espectador ser pego de surpresa constantemente. Essa libertação narrativa se espelha em voos visuais criativos. Um exemplo: quando está em campo em plena forma, o protagonista não enxerga seus parceiros de times ou seus adversários; ele vê filhotes de cachorros felpudos de três metros de altura, envoltos em névoa rosada. Como se percebe, as palavras faltam para se descrever as cenas do longa. Pena que não há trailer até o presente momento, apesar do título ter ganho a Quinzena dos Realizadores do Último Festival de Cannes.

Assim, ao embarcarmos na viagem que é o enredo de Diamantino, visitamos personagens bizarros, como suas irmãs gêmeas malignas, ou uma certa freira lésbica. Isso gera muitos momentos cômicos deliciosos para todos que flertam com o nonsense. Ainda nessa seara, a figura de Carloto Cotta é essencial. Ele entrega um herói sem qualquer centelha de inteligência, mas mesmo assim cria simpatia na plateia.

Para completar, há um subtexto contestador maravilhoso, para dar à comédia um de seus propósitos mais nobres: escancarar os absurdos que vemos nos telejornais e na política. Com suas cores fortes, vemos que as esquisitices do mundo real se encaixam bem demais com a proposta extremada do filme. Preocupante. Para o mundo, não para Diamantino.

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