CRÍTICAS ESTREIAS

Dunkirk: O tempo não para

O que esperar de um filme sobre a Segunda Guerra Mundial em pleno ano de 2017? Se a resposta passa longe do famigerado “mais do mesmo”, o passaporte para cruzar essa fronteira e embarcar em uma experiência singular chama-se DUNKIRK. O nome refere-se a uma praia na costa da França, palco de um episódio histórico, que pode ser considerado um grande fracasso militar, mas também um milagre, por ter salvado milhares de vidas. Quando a Operação Dínamo começou em 27 de maio de 1940, o objetivo era resgatar em torno de 45 mil soldados ingleses. Pouco mais de uma semana depois, em 4 de junho, cerca de 340 mil homens, entre ingleses (maioria), franceses, belgas e holandeses, conseguiram sobreviver ao ataque alemão.

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A impressionante horda de soldados a espera de um resgate. (Dunkirk / 2017 /  Christopher Nolan)

Dunkirk acompanha essa jornada desesperada sob três pontos de vista, que se passam em momentos – e elementos – diferentes: na terra, na água e no ar. A história, então, não será contada de forma linear e é importante ficar atento para que o “mergulho” se torne mais intenso a cada minuto. O tempo, aliás, é um fator predominante. Algoz dos soldados, que passaram a viver uma interminável contagem regressiva, ele se faz presente de variadas formas, visualmente (noite e dia) ou sonoramente, com o implacável tic-tac de um relógio inserido na trilha. E se a pressão era grande em cima dos combatentes no front, com o público não seria diferente nas salas escuras. Assim, será possível “sentir” os dias que a infantaria levou para ser resgatada, as muitas horas que as embarcações civis levavam para chegar e os cerca de 60 minutos que os pilotos dos ferozes Spitfire (avião da Força Aérea Real) tinham para proteger os aliados que batiam em retirada, de bombardeiros Heinkell 111 e dos temidos caças Messerschmitt 109.

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Três Spitfire da RAF em formação, em Dunkirk (2017), de Christopher Nolan

Conhecido pelo cuidado ao realizar suas obras, pelas narrativas criativas e até complicadas, como Interestelar (2014) e A Origem (2010), Christopher Nolan, pela primeira vez, escreveu e dirigiu um longa baseado em fatos reais. E fez algo grandioso, como o realizado com o universo dos quadrinhos na trilogia Batman – Cavaleiro das Trevas (2005-2008-2012). Por outro lado, Dunkirk está longe de ser um filme de herói no sentido restrito. Embora existam momentos de heroísmo, alguns de maneira menos óbvia, o ponto que merece ser observado é o oposto. É da covardia que se extraem alguns atos que podem ser considerados heroicos ou não, como revelou a própria evacuação em massa sob o constante ataque do inimigo. Naquela altura, fugir não era mais uma questão de honra, mas de morrer ou sobreviver. E nesse cenário de desespero é que irão aflorar questões éticas, morais, o patriotismo, a dignidade, egoísmo, entre outros pontos, condenáveis ou não.

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Harry Styles, Aneurin Barnard e Fionn Whitehead, em Dunkirk (2017), de Christopher Nolan

É curioso, no entanto, ver uma produção de guerra “limpa”, sem sangue em demasia ou mutilações, obter forte impacto. Parte disso se deve a capacidade do roteiro de botar você ali, junto, neste episódio singular da humanidade, que poderia ter outro destino. Filmado com câmeras especiais (como a IMAX) para dar maior amplitude ao que será visto na tela e sem exageros na computação gráfica, tão comum nos dias atuais, uma sessão em sala especial ajuda nesse processo de imersão. Se isso denota uma espécie de guerra velada do realizador contra as múltiplas telas que o cinema enfrenta atualmente (celulares, tablets, streaming etc), o tiro foi certeiro. E essa impressão só aumenta quando se leva em consideração o esmero com o som e a trilha, do premiado parceiro Hans Zimmer (A Origem).

dunkirk-christopher-nolan-2017Explosões, ondas, tiros, rangidos, ruídos aquáticos, tudo está ali para provocar inúmeras sensações e o fator tempo, de novo, retorna, para ampliá-las. Está, por exemplo, em agoniantes cenas de afogamento não simultâneas, mostradas em sequência, e até na duração do filme que tem pouco mais de 100 minutos, mas parece maior, tamanho é o sufoco que ele provoca. E se o encaixe das histórias confundir (um pouco) em algum momento, quebrar o clímax de uma cena em outro, o resultado final ainda assim é excelente. Sem querer explorar somente o fato (outras produções fizeram antes), o cineasta procurou ressaltar os momentos daquelas pessoas e sem um protagonista formal. Mesmo o elenco tendo nomes como Kenneth Branagh, Mark Rylance, Tom Hardy e Cillian Murphy, e até exista um certo protagonismo nas tramas que irão se entrelaçar, é o conjunto que interessa. É como se o lugar fosse o protagonista e a morte, antagonista, rondando todos os envolvidos, porque o tempo não para.

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