CRÍTICAS FESTIVAIS

Infiltrado na Klan: Necessário

Com filmes como Faça a Coisa Certa (1989) e Malcom X (1992), Spike Lee é uma das mais atuantes vozes em Hollywood quando o assunto é na luta contra o racismo. Ultimamente, estava fazendo filmes menos impactantes. A boa nova é que o realizador faz o cinéfilo lembrar dos itens mais primordiais do seu currículo com Infiltrado na Klan; filme ganhador do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2018, O longa faz parte da seleção da Mostra 2018.

Logo no começo, faz-se o aviso de que estamos diante de uma história real, porque os acontecimentos são tão surpreendentes e absurdos que o anúncio se faz mais do que necessário, sob o risco de soar como produto da imaginação de um roteirista exagerado.

A trama se passa no início dos anos 1970 e acompanha a jornada de Ron Stallworth (John David Washington), o primeiro policial negro de Colorado Springs. Ele consegue, com a ajuda do parceiro Flip (Adam Driver, de Star Wars: Os Últimos Jedi), se infiltrar na KKK para investigar os atos violentos dessa instituição. Nessa parceria, ambos dão sua colaboração para viverem um mesmo personagem. Ron conversa com outros membros do grupo pelo telefone e dá voz ao infiltrado. De seu lado, Flip encarna a versão em carne e osso de um racista e briguento.

Por exigência do próprio Lee, Infiltrados no Klan tem uma pegada cômica, retratando os racistas como homens ridículos (que são) e pouco inteligentes (que costumeiramente são também). O humor é realmente uma boa forma de que consigamos conviver com aqueles personagens durante a sessão.

Nesse ponto, merece destaque a figura de David Duke, levado à tela na performance de Topher Grace (Conspiração e Poder). O líder do bando preconceituoso é um dos grandes motivos de piada do filme, o grande bobo da vez nas mãos dos protagonistas. Para quem não ligou o nome à pessoa, Duke é exatamente o mesmo sujeito que recentemente declarou admiração a um certo político brasileiro que, segundo ele, tem ideias semelhantes ao de seu grupo.

Ainda no campo dos recursos cômicos da produção, há uma interessante apropriação estética. Faz-se referências ao cinema de blaxploitation e também aos longas e seriados policiais clássicos, gêneros que estavam em alta na época em que o enredo se desenvolve. Assim, há uma reafirmação do filme como cinema negro e como produto cultural de discurso amplo – uma coesão inteligente e saborosa.

O retorno de Spike Lee a um cinema mais claramente político é muito bem-vindo, diante da onda conservadora que emergiu no mundo nos últimos anos e fez crescer os casos de agressões motivadas por ódio e preconceito. Por isso, seu filme mais recente não teme em traçar evidentes paralelos entre o que padeciam os personagens nos anos 1970 e o que testemunhamos agora. Esse é o elemento que mais impacta em Infiltrado na Klan, com um epílogo doloroso que suplanta toda a comicidade anterior.

Que reflitamos sobre os rumos que estamos tomando.

Cotação: **** ½

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