CRÍTICAS ENTREVISTAS ESTREIAS

Melhor filme em Gramado, Ferrugem é um grito pela empatia nas redes sociais

Foram três Kikitos em Gramado: melhor filme, roteiro e desenho de som. Dirigido por Aly Muritiba, Ferrugem entra em cartaz no mesmo dia do também imperdível Yonlu, de Hique Montanari, destaque da Mostra de Longas Gaúchos do mesmo festival. Ambos tocam forte na questão da exposição nas redes sociais. São obras duras e necessárias sobre os Millennials.

Ferrugem é um retrato angustiante de duas gerações: a dos adolescentes hipnotizados por conexões “sociais” e emoções virtuais, e a dos pais deles, perdidos em paradigmas e ética em transição. Do apuro técnico do roteiro à composição dos planos, passando pela fotografia, montagem e trilha sonora, o filme traduz do título certeiro a sensação de uma engrenagem de relações inacabadas, silêncios incômodos, distâncias desconfortáveis.

“Aly me mandou o primeiro tratamento do roteiro com toda a estrutura da história, e comecei a trabalhar a partir daí”, diz a coautora Jessica Candal, em entrevista coletiva durante o Festival de Gramado. “O que fizemos foi preencher o roteiro com a vida e o ponto de vista de cada personagem, para assim mostrar como dialogam com o tema central do filme.”

Premiados: o diretor Aly Muritiba e a coautora do roteiro Jessica Candal/Foto: Edison Vara

Na trama, Tati (Tifanny Dopke) dá corda para o tímido Renet (Giovanni de Lorenzi), que está em crise com a mãe por ela ter “abandonado” o pai dele (Enrique Diaz) sozinho com os dois filhos para constituir uma nova família.

O vazamento de um vídeo comprometedor de Tati – que vai até parar num site pornô – é o estopim narrativo que tumultua os longos corredores da escola, desencadeia uma tragédia anunciada e provoca a reunião da família de Renet. Ao mesmo tempo, instaura um certo clima de suspense na busca pelo responsável.

“A ideia para o roteiro veio das minhas inquietações como um pai que vê seus filhos crescendo e usando as redes, mas minha visão era mais oitentista, talvez ingênua, e a Jessica foi fundamental para modernizar a história e aproximá-la da realidade dos jovens de hoje”, afirma o cineasta.

A narrativa se divide em dois capítulos, o primeiro foca Tati e o segundo examina Renet. Clarissa Kiste, intérprete da mãe do rapaz, comenta como foi trabalhar com essa geração. “É muito legal estar com um elenco jovem que vive exatamente o que está ali no filme, e nós que somos de outra geração aprendemos com eles os benefícios e perigos de lidar com as redes sociais”, conta.

Atualmente no elenco da novela Deus Salve o Rei, Giovanni De Lorenzi, fala da importância da união do elenco. “Precisávamos tratar de um assunto tóxico  que estava no dia a dia das filmagens, e tínhamos de nos segurar nos momentos difíceis, inclusive abraçar a Tiffany, que estava sofrendo com uma carga emocional grande. Era preciso provocá-la para que chegasse aos lugares aonde a personagem precisava ir, para depois resgatá-la dalí”, revela. “Construi o Renet ao entender as angústias da Tati na primeira parte.”

Para Clarissa Kiste, os pais precisam considerar valores que são anteriores às redes sociais. “Mais do que pensar em como nossa geração deve agir com os filhos em relação aos limites, é necessário resgatar valores como a empatia, porque é tudo uma questão de educação”, conclui. “Como esse universo é virtual, o exercício de empatia precisa de mais cuidado ainda, pois não estamos de frente pra pessoa atingida.” (colaborou Fátima Gigliotti)

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