CRÍTICAS ESTREIAS

Menino 23: Divisões sociais não tão distantes

Quando estamos na escola, somos informados que o 20 de novembro é uma data mais apropriada para refletirmos sobre a luta dos negros por igualdade social no Brasil. Isso porque a assinatura da Lei Áurea, data a qual se refere o 13 de maio, não promoveu tantos avanços assim na questão racial. Prova disso é a surpreendente história narrada no documentário Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil.

MAIS:
Entrevista: Filme traz “um espelho da sociedade daquela época”, diz diretor

A partir de um tijolo marcado com a suástica nazista encontrado em uma fazenda no interior de São Paulo, o historiador Sidney Aguilar iniciou uma pesquisa reveladora. Nos anos 1930, algumas décadas após a Abolição da Escravatura, uma família de elite “adotou” cerca de cinquenta garotos negros de um orfanato no Rio de Janeiro e os levou para as tais terras paulistas. Esses meninos viveram ali por muitos anos sob regime de escravidão.

Apenas esse fato já seria digno de um documentário, mas há mais por trás dessa barbárie: os escravocratas Rocha Miranda eram vistos na época como grandes bem-feitores – até hoje, nomes de membros da família batizam ruas e prédios públicos. A escravidão desses garotos só foi possível por causa de um cenário social frutífero a ideologias reacionárias, como o nazismo, o fascismo e o integralismo.

Conhecer a história narrada em Menino 23 é altamente relevante no Brasil atual, onde forças conservadores se avolumam e chegam ao poder – assim como em outras partes do mundo. Por isso, é elogiável a linguagem acessível e instigante do documentário. Além dos depoimentos e imagens de arquivo de praxe, o longa traz dramatizações dos ocorridos em um roteiro em tom investigativo.

Por ter uma base histórica tão sólida, o documentário não foge à obrigação de traçar paralelos entre os eventos dos anos 1930 com a contemporaneidade brasileira. Aqueles que na época se alinharam aos interesses de uma elite nada disposta a perder seus privilégios ficaram marcados como vilões nos livros de História, essa força que se move em ciclos. Por essa peculiaridade, não é difícil imaginar que adotar posturas e aliados semelhantes hoje em dia pode resultar na mesma mácula para as próximas gerações.

Cotação: ****

Publicidade

Deixe o seu Comentário