CRÍTICAS ESTREIAS

A Moça do Calendário: Cinema Novo no século 21

Os créditos finais de A Moça do Calendário dizem que o filme parte de um roteiro de Rogério Sganzerla (O Signo do Caos), adaptado por Helena Ignez (Ralé). Talvez fosse mais honesto dizer que a dramaturgia foi transplantada pela cineasta, que pega o texto de 1987 e o atualiza, ao mesmo tempo que não perde suas raízes ligadas ao Cinema Novo.

O filme mescla cenas em preto e branco com outras de cores bem vivas e alguma granulação de textura, em tom vintage. Assim, vemos cenas que na estética parecem um amontoado da produção cinematográfica brasileira da virada dos anos 1960 para os anos 1970. A relação com o Cinema Novo se cristaliza no roteiro, seja no enredo, nos diálogos, ou nos temas abordados, ávido por discussões sociais e políticas.

A Moça do Calendário acompanha Inácio (André Guerreiro Lopes, de Luz nas Trevas: A Volta do Bandido da Luz Vermelha), um mecânico que foi parar nessa profissão à revelia. O protagonista tem um perfil que não condiz com o que se espera: leitor de Freud, tem devaneios e sonha com uma musa (Djin Sganzerla, de Ornamento e Crime), que parece inatingível.

O personagem não soa absurdo ou descolado do cenário, porque Inácio está inserido em um universo sem muito apego realista. Atuações com temperos teatrais, números musicais e outras performances são bem-vindos nesse eco tropicalista. Para se ter uma ideia, um dos colegas de trabalho de Inácio se chama Grande Otelo, e é ciente do peso histórico de seu nome.

A transposição do Cinema Novo para a contemporaneidade começa pelos temas. O longa traz as discussões políticas de praxe, mas repaginadas aos dias de hoje. Entretanto, o mais importante é a inclusão de pautas feministas e uma tentativa de estender o braço ao movimento negro, com espaço para voz própria, sem mediação viciosa. Esses assuntos costumavam ser esquivados pelos homens brancos que formavam quase toda a intelectualidade da estética de Glauber e outros cineastas.

O cenário da produção também não poderia ser outro. O bairro de Santa Cecília, no centro de São Paulo, é o atual endereço da classe artística e cultural na metrópole. É essa classe, mais aberta ao discurso de minorias do que seus antecessores, que precisa ver A Moça do Calendário. Para se ver na tela, mas também para perceber suas contradições, quais rumos tomar e rir de si mesma.

E que delícia que essas mensagens sejam entregues por Helena Ignez! Uma mulher única que reúne a sabedoria acumulada ao longa de décadas e ao mesmo tempo está disposta a abraçar a verve jovem presente nos discursos de gerações mais atuais. É uma baita voz da experiência para quem quer pensar como defender pautas progressistas hoje, um tempo tão distante da Tropicália, mas com tantas incômodas semelhanças.

 

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