CRÍTICAS ESTREIAS

A Nossa Espera: Família em crise

Quanto é demais? Qual é o ponto em que o copo das obrigações transborda, tornando a vida impossível? Essas e outras perguntas afloram do filme de Guillaume Senez sobre uma família atingida por uma crise interna, e também externa, uma onda de azares e problemas que se avolumam até esse ponto de ruptura.

O retrato inicial é de normalidade urbana moderna. Como tantos outros milhões de casais, Olivier (Romais Duris) e Laura (Lucie Debay) trabalham, cuidam do casal de filhos, têm apoio da família, têm amigos. Olivier sai de casa antes do nascer do sol para liderar uma equipe numa enorme empresa de entregas. O cenário é o primeiro golpe de Senez, mostrando que nossa felicidade com a chegada de nossas compras, nossa demanda pela rapidez está custando a vida de alguém em algum lugar onde a senilidade é medida pela capacidade de carregar pacotes dentro do tempo exigido.

Olivier é um homem justo, tenta impedir a demissão de um colega, só para ver a dispensa acontecer assim mesmo, com drásticas consequências que o enchem de culpa. Funcionária de uma loja, Laura vê uma cliente cancelar uma compra por falta de dinheiro, e o que seria uma ocorrência normal no comércio revela-se uma das pontas de um cenário muito maior. Logo em seguida, Laura desaparece. Como levou uma bagagem, fica claro que não foi sequestrada.

Agora, cabe a Olivier cuidar de tudo, explicar aos filhos porque a mãe não está ali, não ter respostas para quando ela volta e, acima de tudo, fazer as pazes com o fato de que sua visão de mundo, assumir as responsabilidades e aguentar firme, não é a mesma de outras pessoas. O confronto vem de conversas com sua irmã, Betty (Laetitia Dosch), uma atriz cuja vida nômade é também uma fuga do que vê como a morte certa, a vida de obrigações cumpridas e responsabilidades assumidas que Olivier classifica como vida normal, e sua mãe, Joelle (Dominique Valadie), que confessa ter tido ela mesma a vontade de sumir enquanto criava os filhos sozinha por conta da dedicação do marido ao trabalho.

Conflito, perda, o incômodo sentimento de vingança ao saber da demissão da mulher que poucas cenas havia causado a tragédia de outro funcionário, o que só mostra o grau de desumanização a que chegamos nas empresas, mas, acima de tudo, o sentimento de abandono e traição. Se estou fazendo tudo certo, cumprindo as minhas obrigações, por que isso aconteceu? Para Senez, não há culpados, apenas pessoas que lidam com as situações de forma diferente.

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