CRÍTICAS ESTREIAS

O Banquete: Jantar antropofágico

Definido por Daniela Thomas como sua “tragicomédia de costumes”, O Banquete é baseado em suas próprias experiências em casa, já que ela, filha de Ziraldo, conheceu esses jantares desbocados com artistas e jornalistas desde a tenra infância.

Apesar de filmado em 2016, não se contava que aquelas coincidências da vida tornariam o momento de seu lançamento, neste ano, não o melhor para a produção. A primeira delas foi a morte de Otávio Frias Filho na véspera da exibição do longa no Festival de Gramado, que a cineasta achou por bem cancelar – mas que, ainda assim, estreia agora no circuito.

Isso porque a carta aberta do diretor de redação da Folha de S. Paulo ao então Presidente da República, Fernando Collor de Mello, em 1991, serviu de inspiração para a trama em que Mauro (Rodrigo Bolzan), editor-chefe de uma revista, se vê aterrorizado pela possibilidade de ser preso a qualquer momento por causa de tal publicação.

A ideia, originalmente pensada para o teatro, não vingou vinte anos atrás, mas despertou a atenção de seu parceiro no polêmico Vazante (2017), Beto Amaral, que viabilizou a produção. Na trama, a amiga e colega de trabalho Nora (Drica Moraes, excelente até demais) organiza um jantar de comemoração do aniversário de casamento de Mauro com a atriz Bia Moraes (Mariana Lima), justamente nesta hora decisiva para o personagem.

A ocasião se torna pior quando quem senta à mesa são cartas marcadas de um jogo de poder que se constrói, essencialmente através do sexo e das relações de gênero. Com Caco Ciocler, Fabiana Gugli, Gustavo Machado, Chay Suede, Bruna Linzmeyer e Georgette Fadel completando o elenco, a maioria dos convidados deste banquete se comporta como a planta carnívora indica na abertura, não devorando a carne, mas a sua posição neste jogo onde uma rainha quer derrubar o rei.

Saindo, entretanto, pouco mais de um mês depois do lançamento aqui no Brasil do britânico A Festa (2017), a comparação é inevitável, já que, diferente de Sally Potter, Daniela não consegue transpor cinematograficamente o DNA essencialmente teatral desta história.

Na mise-en-scène circunscrita à sala de jantar em quase todo o longa, a câmera de Inti Briones é trôpega desde o primeiro instante, sem que nem uma gota de álcool seja derramada ainda; quando todos estão bêbados, ela já não causa efeito e se torna cansativa, diferente da trilha sonora do irmão Antonio Pinto, que também traz o jazz para embalar a DR à mesa.

O paralelo pessoal e político na produção brasileira, ao mesmo tempo em que parece mais óbvio, apresenta uma construção mais falha que a tragicomédia inglesa, mais eficiente também em sua crítica ao desencontro moral entre as ações e discursos dos ditos “liberais” – frente aos conservadores e não do ponto de vista econômico. Um deleite para os atores, que puderam criar em cima de seus diálogos nos ensaios e na filmagem, O Banquete, porém, não proporciona o mesmo prazer para os espectadores.

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