CRÍTICAS FESTIVAIS

O Barco: Longo desbunde visual

O diretor cearense Petrus Cariry (Clarisse ou Alguma Coisa sobre Nós Dois) já construiu seu nome no cinema autoral brasileiro contemporâneo, com obras curtas porém alongadas. Em seus filmes, muitas vezes vemos um não-lugar, sem muitas exigências de realismo, onde temos uma experiência mais sensorial e metafórica do que propriamente narrativa.

Essa é a proposta de O Barco, filme que abriu o Cine Ceará 2018. A história se passa em uma praia na qual os moradores só pescam na margem, sem nunca se aventurar em alto-mar. Nessa caverna de Platão versão praieira mora Esmerina (Veronica Cavalcanti, de Onde Borges Tudo Vê), mãe de 26 filhos, cada um batizado com uma letra do alfabeto.

A letargia local é perturbada pela chegada de Ana (Samya De Lavor, de Boi Neon), uma misteriosa e sedutora contadora de histórias. A sensualidade da personagem é evidente em suas falas e gestual, como ferramenta de poder. Mesmo assim, o diretor aborda sua nudez de forma desnecessária em pelo menos algumas ocasiões. Ana fala de violência e opressão contra a mulher, mas a exploração quase fetichista de seu corpo pela câmera questiona a autenticidade de seu discurso.

Se nos corpos temos problemas, nas paisagens vamos a outro extremo. O Barco é um filme de inegável beleza, seja nas sequências solares na praia, seja nas obscuras cenas noturnas de paleta emprestada de Caravaggio. A forma como se orquestram essas assinaturas visuais é o maior trunfo do longa. Ainda na parte técnica, o som e a trilha entram em campo para favorecer o aspecto sensorial da produção.

Entretanto, é imprescindível ao espectador aceitar a proposta de cinema defendida por Petrus. O Barco tem 72 minutos de duração, mas repletos de boa dose de tempo contemplativo que desafia uma plateia em busca de dinamismo audiovisual.

Cotação: ***

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