CRÍTICAS ESTREIAS

O Beijo no Asfalto: Nelson Rodrigues reinventado

Fernanda Montenegro estava na primeira montagem da peça de Nelson Rodrigues, em 1961. Sua presença na ousada revisão da obra confere uma aura de encantamento à estreia do ator Murilo Benício na direção. O formato é original e em nada se aproxima das outras duas versões cinematográficas: O Beijo (1965) e Beijo no Asfalto (1981).

Benício bebe na fonte naturalista de Eduardo Coutinho para dar um ar documental à sua obra de ficção. O convite que faz ao espectador é o de invadir os bastidores e mergulhar no processo junto com o elenco.

Além de Fernandona, nomes como Débora Falabella, Lázaro Ramos (foto), Stênio Garcia, Otávio Müller e Augusto Madeira surgem ao redor de uma mesa com o roteiro em mãos, e são guiados pelo teatrólogo Amir Haddad pelo perverso universo rodrigueano. Em belo preto e branco, Benício flerta com o noir ao intercalar a dinâmica dos atores com as cenas do filme em si.

É ahistória um homem que, num gesto banal, atende ao pedido de um beijo na boca feito por um sujeito prestes a morrer. O ato é testemunhado por um repórter sensacionalista que passa a explorar o beijo entre dois homens para vender jornal.

O enredo explora os efeitos da notícia no núcleo familiar, com a esposa, cunhada e sogro do protagonista. Impressiona a atualidade do texto dos anos 60, que fala dos estragos da fake news e da guerra pela audiência meio século antes da invenção dessa expressões.

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