CRÍTICAS ESTREIAS

O Botão de Pérola: Mortos desenterrados

Água, muita água é o que se vê no início do documentário do chileno Patricio Guzmán. As imagens de oceanos e geleiras são belíssimas, mas ele leva um tempo até mostrar a que veio. O que tem a relatar, no entanto, não existiria sem a água que abunda no início, porque dela se origina o botão de pérola do título. É arrebatadora a forma como o cineasta constrói uma ponte entre o violento processo de colonização de sua nação e os horrores da ditadura de Pinochet.

Em seu filme anterior, Nostalgia da Luz (2010), Guzmán já aproximava a geografia chilena da ditadura militar. Olhava primeiro para o céu, através de telescópios situados no Deserto do Atacama, para então se voltar ao que se passou em solo durante os 17 anos do governo Pinochet. Se ali as mulheres buscavam seus mortos no deserto, em O Botão de Pérola a busca por desaparecidos é no mar.

Vencedor do prêmio de melhor roteiro no Festival de Berlim 2015, O Botão de Pérola reúne imagens incríveis de povos indígenas do sul do Chile. O cineasta esmiúça seu primitivismo, suas crenças e costumes, para então focar em um personagem fascinante: Jemmy Button. Na primeira metade do século 19, o selvagem da Terra do Fogo foi levado à Inglaterra para ser “civilizado” nos moldes do cristianismo e da aristocracia inglesa, e mais tarde foi levado de volta para seu habitat natural por Charles Darwin.

A maneira como esse “Tarzan” chileno foi convencido a deixar sua terra natal explica seu apelido, “button”(botão), mas é apenas no emocionante desfecho que Guzmán revela de que forma esse objeto se liga ao drama dos prisioneiros mortos e jogados ao mar pelos torturadores de Pinochet. Seja através dos relatos dos remanescentes das tribos primitivas da Patagônia ou nas entrevistas com testemunhas dos crimes dos anos de chumbo no Chile, o diretor conduz o público por realidades aterradoras da falta de humanidade do ser humano. É uma pena que a estreia fique restrita ao público do CineSesc.

Cotação: ****

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