CRÍTICAS ESTREIAS

O Formidável: Adorável e insuportável

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É possível dividir em três tipos o público para o novo filme de Michel Hazanavicius, Oscar de melhor diretor por O Artista (2011) que ainda levou outras quatro estatuetas. E as chances de agradar, ao menos, dois deles não é pequena. O Formidável é uma comédia dramática e aborda com humor um período da vida do cineasta Jean-Luc Godard, personagem marcante da Nouvelle Vague francesa e, para muitos, alguém intocável. Estatísticas (nada oficiais) à parte, o primeiro seria o espectador descompromissado, o segundo seria o cinéfilo apaixonado por cinema, mas sem idolatrias, e o terceiro seria aquele fã ferrenho, que não admite um olhar diferente para seu ídolo. E agora, com qual deles você se identifica?

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Louis Garrel e Stacy Martin, em O Formidável, de Michel Hazanavicius.

Diretor francês aclamado por sucessos como Acossado (1960) e Bando à Parte (1965), Godard (Louis Garrel) se envolve com Anne Wiazemsky (Stacy Martin), estrela 20 anos mais jovem de sua recente produção (A Chinesa, de 1967) e acabam se casando. O relacionamento dos pombinhos apaixonados, no entanto, sofre um abalo quando o cineasta decide investir no cinema mais político e mergulha de cabeça nos históricos protestos realizados por estudantes e trabalhadores em maio de 1968.

o-formidavel-2017Baseado na autobiografia “Un an après” (Um Ano Depois) de Anne Wiazemsky (1947-2017), Hazanavicius revelou que teve total liberdade no roteiro, mas procurou seguir o relato da ex-esposa do cineasta e acabou criando um curioso retrato efervescente da relação do casal, do cenário político e por que não do cinema. Para isso, destilou com inteligência as muitas características do retratado, não se esquivou de cutucar no seu temperamento terrível, no lado até infantil, e fez tudo isso – eis aí algo genial – usando a linguagem audiovisual tão singular dessa emblemática figura. Com isso, será possível para o espectador rir e também se constranger com diálogos incríveis, além curtir as muitas sacadas visuais “godardianas” que ilustram a trama. Se olhar sem paixão, percebe-se que de maneira inspirada Hazanavicius usa tais recursos não só como referência, mas também reverência ao ilustre diretor, que passou a negar seu próprio trabalho e em prol do proletariado, colecionou desafetos, entre eles François Truffaut.

o-formidavel-le-redoutable-2017Das experimentações com as imagens, emuladas com maestria, passando pelo uso da narração até o questionamento sobre o apelo da nudez, tudo é manipulado de forma divertida e do início ao fim. E como prova cabal de que nada passou em branco, cores “perseguidas” por Godard em sua obra como o vermelho, o azul e o amarelo estão presentes em cena. Do elenco afiado, destaque total para Garrel que incorpora o cineasta em um papel difícil, por revelar o lado não tão rebuscado de um ícone, aqui desconstruído e, ao mesmo tempo, reconstruído diante do público.

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Se vai incomodar uma parcela da crítica, como aconteceu em Cannes, o fato é que Le Redoutable (no original) é, sem sombra de dúvida, um filme bem humorado e imperdível para quem gosta de cinema por todas as razões expostas acima e outras mais. E, curiosamente, o título recebido no Brasil acabou sendo um raro caso em que a versão brasileira (quase sempre mal traduzido e muito criticado) revela, com todo respeito, a impressão após a sessão: de se estar diante de um longa formidável sobre alguém adorável e insuportável.

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