CRÍTICAS ESTREIAS

O Insulto: Faísca para o caos

Olha o motivo da discussão entre Tony, cristão libanês, e Yasser, refugiado palestino: uma calha. Tony mora com a esposa grávida nesse apartamento cuja instalação da calha que capta a água do terraço está irregular. Yasser é o engenheiro que está ali com sua equipe de obra para fazer o reparo. Como Tony não autoriza a entrada no apartamento, eles fazem o conserto pelo lado de fora. Serviço feito. Então chega Tony com sua marreta e quebra o cano, ao que Yasser reage: “Babaca do caralho!”. Pronto.

Essa situação tão banal quanto esdrúxula é o estopim para uma desavença que obviamente vai muito além das palavras. Tony exige desculpas, Yasser se recusa a fazer o pedido e a pendenga vai parar no tribunal. A Beirute dos dias atuais se torna palco de um embate físico, psicológico e jurídico, e O Insulto entra forte na briga pela estatueta de melhor filme estrangeiro pela simplicidade contundente com que o diretor libanês Ziad Doueiri vai do micro ao macro nessa trama sobre justiça e intolerância.

De todos os indicados na categoria, o que mais pega pelo estômago é o representante russo, Sem Amormas O Insulto tem um enredo sofisticado, em que novos elementos são adicionados com sutileza, embora com a força de transformar não só a visão do público em relação aos protagonistas quanto a dos personagens em relação a eles mesmos.

O conflito religioso e ideológico que acirra os ânimos na corte e toma as ruas ganha ainda mais magnitude quando o cineasta joga luz na raíz do comportamento de Tony e Yasser. Não há bem ou mal, não há mocinho ou bandido. Não há maniqueísmo. Há, sim, erros cometidos por dois homens comuns, com seus demônios intermos, que no meio da guerra tomam consciência de que, no fim das contas, lutam pela mesma razão: a paz. Essa é a mensagem que pode valer a (merecida) estatueta dourada.

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