CRÍTICAS ESTREIAS

Ressurreição: Jornada espiritual

O diretor Kevin Reynolds tem apreço especial por personagens históricos, sejam eles lendários ou reais. Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões (1991), O Conde de Monte Cristo (2002) e Tristão & Isolda (2006) são exemplos, e vale lembrar a minissérie Hartfield & McCoys (2012), sobre a folclórica rixa entre duas famílias no século 19. Ninguém menos que Jesus de Nazaré vem agregar a lista, embora em Ressurreição (2016) o Messias seja coadjuvante. O protagonista é o tribuno romano Clavius, interpretado com convicção por Joseph Fiennes (Shakespeare Apaixonado). Ao apresentar um episódio bíblico pela perspectiva de um cético sanguinário, Reynolds injeta frescor ao gênero “religioso”.

A grande sacada do cineasta, que escreveu o roteiro em parceria com Paul Aiello, é propor algo diferente dos filmes que costumam passar na TV em épocas como Páscoa e Natal. Ressurreição é um policial detetivesco, que pelo menos na primeira metade se sustenta em uma narrativa ágil e calcada na realidade. Porque não há nada de divino na crucificação de Cristo recriada em cena. Ela acontece em um beco qualquer e, apesar de os soldados romanos notarem uma movimentação maior da população na execução daquele dia, o nazareno não passava de outro baderneiro condenado à morte pelo prefeito Pôncio Pilatos (Peter Firth). Os cenários são sujos, poeirentos, não há luz celeste a incidir sobre a cruz. Esse visual tosco gera uma atmosfera ordinária e autêntica.

Cliff-Curtis-in-Risen

Braço forte de Pilatos, o tribuno Clavius é enviado ao local para acalmar os ânimos e decide abreviar o sofrimento dos réus, momento em que Jesus (Cliff Curtis) morre atingido pela lança. A dimensão daquela execução aparentemente corriqueira começa a se mostrar aos poucos, e se torna assunto de Estado quando o corpo de Jesus desaparece do túmulo três dias depois. Clavius é incumbido de descobrir quem roubou o corpo, resgatá-lo e diminuir o impacto da suposta ressurreição prevista pelos profetas que anunciaram a vinda do Messias. Seu parceiro de investigação é Lucius (Tom Felton), e a dupla sai a campo atrás de respostas.

A suspeita recai sobre os apóstolos e os interrogatórios, em especial com Maria Madalena (María Botto), são a melhor parte do filme. Mas, claro, Reynolds tem um anti-herói para explorar e no segundo ato dedica-se a mostrar a transformação de Clavius nesse processo. O tribuno é uma máquina de guerra, selvagem e cirúrgico na batalha, mas vive uma espécie de estresse pós-traumático, quer mudar de vida, se afastar da morte diária. Essa jornada espiritual acaba por brecar o ritmo, e a partir do encontro entre o centurião e Jesus a trama envereda para o drama. Podia ser muito bom, mas fica no quase.

O feriado de Páscoa se aproxima e Cristo estará nas telas também na versão infantil, em O Jovem Messias, que estreia dia 24.

Cotação **1/2

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