CRÍTICAS ESTREIAS

Safári: Por trás dos rifles

Alguns documentaristas preferem adotar um distanciamento máximo, para que seus objetos de estudo falem por si só. Foi o que o brasileiro Gabriel Mascaro fez em Um Lugar ao Sol (2009), sobre moradores de coberturas de luxo em grandes cidades brasileiras, e é o que faz Ulrich Seidl (Import Export) em Safári, sobre turistas europeus que vão à África caçar animais selvagens. Assim, o filme é feito de imagens dos turistas no meio da savana e em momento de lazer, como banhos de sol; depoimentos sobre a visão deles do que significa esse tipo de caça; o sofrimento das presas; e alguns momentos dedicados para a população local, que nunca fala.

Essa opção de estrutura resulta em um filme difícil de assistir, porque toda problematização parte da cabeça do espectador, que precisa suportar as cenas de caça e os discursos egoístas dos personagens do filme. Quem tiver estômago para isso se virá diante da oportunidade de entender o que se passa na cabeça de um sujeito que sai do conforto do seu lar para assassinar um animal indefeso apenas pelo prazer de tirar a vida do bicho.

A opção pelo afastamento retira de Safári a obrigação de oferecer dados factuais para melhor entender o contexto. Contudo, seriam interessantes. No relato dos caçadores, sabemos quanto vale cada animal abatido, mas o filme ganharia maior relevância se oferecesse estatísticas oficiais. Quantos turistas existem nesse mercado sangrento? Quanto dinheiro se movimenta? Quanto ganha a mão de obra local? Não sabemos.

Outra escolha questionável está no alongamento das sequências de caça, o que arrasta o ritmo do documentário e ainda passa a impressão de um flerte com o sadismo. Depois da extenuante experiência de assistir a Safári, fica a sensação de que um curta seria suficiente para transmitir a mensagem sem que o espectador passe por esse martírio visual.

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