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Segunda temporada de 3% investe na divisão social

Bem-sucedida no Brasil e festejada no mercado internacional,  a primeira série brasileira da Netflix já está com a segunda temporada disponível. Durante a coletiva de imprensa, a estrela Bianca Comparato contou ter sido reconhecida nos Estados Unidos. 3% entra neste novo ano com óbvio crescimento no orçamento, visível na fotografia, efeitos especiais e figurino.

Na segunda temporada, o público finalmente descobre como é o Maralto, a idílica terra onde só os melhores podem viver após serem aprovados no Processo, misto de vestibular e reality show ao qual os moradores do Continente se submetem aos  20 anos de idade. Como em outros universos de ficção distópica em que a população está dividida em possuidores e despossuídos, a moradia dos privilegiados prima pela claridade, geometria e limpeza. A ordem e abundância em contraste com o caos urbano e a falta de quase tudo do Continente.

Os primeiros episódios trazem explicações para diversos pontos abertos. Diferente do abandono total, os moradores do Continente recebem cuidados como vacinação. Flashbacks revelam a origem do Maralto, explorando outros temas com reflexos na realidade, como o manejo dos recursos naturais, o nepotismo, a luta pelo poder e o abuso de quem o detém. Embora retratado como um mundo perfeito, o Maralto tem lutas internas, já que o principal objetivo de quem está no comando é permanecer nele e manter o estado de coisas, enquanto o foco de quem está abaixo é obter o poder.

A série também abandonou a ideia de que todos no Maralto são vilões em oposição aos mocinhos do Continente, e mostra que na Causa, movimento armado que luta contra o Processo, há manipulação e extremismo. A queda do maniqueísmo é boa para a história e para os personagens, que se mostram mais desenvolvidos ao ter dúvidas quanto ao caminho a seguir e principalmente quanto a qual lado ou organização pertencer – ou mesmo se é saudável e correto pertencer a qualquer grupo.

Ainda um formato novo no Brasil, o seriado continua surpreendendo os atores com alguns procedimentos, entre eles a presença do roteirista no set de filmagem, o que permite ajustes durante a gravação. “Foi muito gostoso ficar no set”, confirma Pedro Aguilera, criador e roteirista de 3%, durante a coletiva. Bianca Comparato também aprovou a proximidade do roteirista “porque é muito importante quando você tem uma ideia e transmite pra ele na hora”.

Pedro confirma a inspiração no cardápio da distopia, de clássicos como Admirável Mundo Novo aos novos Divergente e Black Mirror, mas não é totalmente fã do rótulo ficção científica. “É ficção científica, mas é das ciências sociais”, assinala o criador.

Uma das novidades do elenco é Bruuno Fagundes. “Meu personagem é a personificação do spoiler”, ele avisa entre risos. Outro destaque é Laila Garin como a comandante militar Marcela. Adversária de Ezequiel no comando do Processo, Marcela é parte de uma das revelações da segunda temporada sobre a rede de relacionamentos entre os personagens. “É uma metáfora simplíssima e eu falo simples como profundo, pois tem a segregação social, as desigualdades, tem quem se contenta com isso e pensa que vai se resolver sozinho através do próprio mérito ou de alguns privilégios”, analisa a atriz.

Sobre sua personagem, Laila a coloca entre os que estão felizes com o mundo de 3%. “Ela faz qualquer coisa para estar no poder. Quer manter o estado das coisas, acredita no Processo e é a favor da intervenção militar”. Previsivelmente, o embate entre o poder civil de Ezequiel e o militar de Marcela, atraiu comparações entre a série e a ocupação militar no Rio de Janeiro.

“Qualquer obra artística é uma antena. Esses sinais estão aí há um tempo, e eu acho que o mais importante da nossa série é colocar isso em discussão e evidência. A gente usa essa metáfora desse mundo distópico, desse Brasil daqui a alguns anos para falar do que a gente está vendo no nosso dia a dia, dos sinais que estamos vendo, para colocar em evidência e discussão e também propor um caminho para isso”, comenta Rodolfo Valente, intérprete de Rafael, um dos personagens que mais cresceu ao longo das duas temporadas, mostrando-se capaz de criticar cada lado, mesmo aquele ao qual é fiel.

O resultado dessa expansão e melhorias é uma segunda temporada muito superior à primeira. Alguns diálogos ainda soam formais e empostados em excesso, mas os roteiristas e o elenco estão bem mais confortáveis e corajosos com a história que estão contando.

 

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