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Selton Mello quer corrupto preso em O Mecanismo, da Netflix

Honestidade é uma virtude que exige uma grande dose de loucura no país da impunidade. Esta não é a premissa de O Mecanismo, mas bem podia ser o tema da série de José Padilha e Elena Soarez para a Netflix. Não é incomum quem se revolta com a situação ao ouvir conselhos para deixar para lá ou vai ficar doente enquanto quem deveria ser punido segue vivendo muito bem, e é isso o que acontece com Marco Ruffo, policial interpretado por Selton Mello na série que está disponível a partir de amahhã, dia 23.

Obsessivo, eficiente e já em desequilíbrio, ele aparece em 2003 rastreando o doleiro Ibrahim, vivido por Enrique Diaz. O período resgata um escândalo já quase esquecido da nossa pizzaria, o caso Banestado, quando a Polícia Federal investigou o uso do Banco do Estado do Paraná no envio de dólares para o exterior envolvendo nomes estrelados e lavagem de dinheiro.

Salto para 2013, e a série reencontra Ibrahim, agora em novo cenário, Brasília, onde atua como doleiro de políticos numa casa de câmbio instalada em um lava-jato. No rastro do que acontece ali, está a delegada Verena (Caroline Abras), colega de Ruffo que viu a investigação se desfazer no Paraná. O cenário está pronto para o caso que habita o noticiário e que vai provar que Ruffo tinha razão desde o início, estamos diante de um câncer que se espalha por todo o corpo.

Baseada no livro Lava Jato: O Juiz Sergio Moro e os Bastidores da Operação que Abalou o Brasil, do jornalista Vladimir Netto, O Mecanismo não se inibe em mostrar desde o primeiro episódio o envolvimento do mais alto escalão do governo no esquema que habita as manchetes e está longe do fim. Nomes fictícios de instituições e pessoas são usados por questões de segurança e para dar liberdade narrativa, mas é fácil reconhecer os personagens.

É uma história que merece ser contada e pode ser bem envolvente, em especial nos momentos em que pequenos golpes de sorte ou acasos acabam se revelando capitais para a sequência das investigações. Selton Mello e Enrique Diaz estão perfeitos como antagonistas, posição que o enredo acentua fazendo deles ex-colegas de escola, o honesto com sua vida modesta, o criminoso com seus milhões. A diferença causa revolta, mas com certeza também leva muitos a apontarem Ruffo como “trouxa”. O mecanismo não existe e viceja alimentado apenas pelo alto escalão.

Embora o esquema criminoso seja complexo, o didatismo e as narrações em off abundantes no início da série são desnecessários. A decisão de Padilha e Elena foi mostrar que o inimigo não é uma pessoa, mas uma gigantesca e profunda estrutura defendida, isso sim, por pessoas que dela se favorecem. E também o sentimento de luta inglória de quem vai contra ela, que faz tantos desistirem ou serem destruídos no processo. Com um elenco de bom calibre, a ação e os diálogos fazem isso muito bem. Não há necessidade de adicionar explicações.

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