CRÍTICAS ESTREIAS

Silêncio: Onde está Deus?

Não, Silêncio não é o melhor filme de Martin Scorsese. Não é inesquecível, como são Touro Indomável, Taxi Driver e Os Bons Companheiros. Mas talvez seja, aí sim, o projeto mais pessoal do cineasta, que levou 20 anos para conseguir realizá-lo. Scorsese leu o romance homônimo de Shusaku Endo no fim dos anos 80 e escreveu a primeira versão do roteiro, em parceria com Jay Cocks (Gangues de Nova York), ainda na década de 90. Só agora reuniu recursos para tirá-lo do papel.

Na trama ambientada no século 17, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) são dois padres jesuítas portugueses (mas só falam em inglês) que vão ao Japão atrás do paradeiro de seu mentor, o padre Ferreira (Liam Neeson). As últimas notícias dizem que os cristãos japoneses têm sido brutalmente perseguidos, torturados e mortos, e que o missionário Ferreira renegou sua fé e agora tem esposa e filhos japoneses. Incrédulos, Rodrigues e Garupe se aventuram pelo Japão para tirar a história a limpo.

A paixão de Scorsese pelo romance é tamanha que ele escreveu o prefácio da mais recente edição do livro, em que expressa seu desejo de levá-lo ao cinema. Descendente de italianos, criado no bairro nova-iorquino Little Italy, o cineasta ensaiou uma incursão na Igreja como seminarista, aos 14 anos, mas desistiu. Embora tenha se debruçado sobre a religião em A Última Tentação de Cristo e Kundun, os questionamentos que levanta em Silêncio lhe parecem mais caros: a vocação, a pregação, a devoção, a compaixão e a desilusão. Há muito para se refletir nessa história de imensa provação.

Silence 2

A fotografia indicada ao Oscar de Rodrigo Prieto explora a névoa de uma região de águas termais. A mesma água que purifica o bebê japonês batizado e que queima e afoga os cristãos torturados pelo governo de um país fechado, que deseja expurgar todas as influências externas. A crença e a convicção do padre Rodrigues, principalmente, passarão por testes inimagináveis. O silêncio aqui é o de Deus, a quem ele clama por respostas nas horas mais difíceis.

Silêncio é um filme lento, dramático, com cenas grandiosas – as crucificações impressionam. As 2 horas e 40 minutos de duração podem afugentar o grande público. Mas, para quem acompanha a carreira do diretor, é obrigatório. Mais do que tudo, é o íntimo do homem Martin Scorsese que se ilumina. Esse é seu testamento.

Cotação: ***1/2

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