CRÍTICAS FESTIVAIS

Sol Alegria: Manifesto anárquico

Ao ver Os Príncipes, de Luiz Rosemberg Filho, fiquei com algumas questões da cabeça. Além da assustadora contemporaneidade de um roteiro com quarenta anos de idade, pensei sobre a importância da estética do cinema marginal. Quem iria assumir esse legado na nova geração? Ao ver Sol Alegria em exibição especial no Cine Ceará 2018 tive a impressão de achar uma boa candidata na figura de Mariah Teixeira. A atriz assina a codireção do longa com seu pai Tavinho Teixeira (Batiguano) e se mostra muito consciente acerca dos temas e opções artísticas da obra.

O filme em si é classificado pela realizadora como “anárquico”. Por isso, saber dos pormenores de seu conteúdo talvez não seja necessário, para manter o frescor. Resumidamente, o roteiro conta a história de uma família de revolucionários em uma viagem transgressora.

Trata-se de uma criação coletiva, e isso fica evidente no amontoado de referências que desfilam na tela. Do já citado cinema marginal, passamos por cenas que se aproximam da nouvelle vague, com um toque de Almodóvar e mais uma pancada de ingredientes cinematográficos. O sucesso do filme está exatamente em orquestrar sua enxurrada criativa, se aventurando nos limites do nonsense.

É preciso salientar que a própria proposta libertadora do filme lhe arma uma arapuca. No final de Sol Alegria há uma sequência performática circense. Para dar espaço aos intérpretes o filme usa câmera na mão e planos alongados, o que se transforma em uma estrutura momentaneamente engessada. Essa passagem cai como uma pelota no meio de um purê.

Mesmo com esse obstáculo, o filme é muito necessário como contraponto à ordem do dia, de um mundo no qual o obscurantismo de forças reacionárias engrandece. Em épocas assim, a arte precisa de gritos, sejam eles políticos, ou de puro tesão. Em Sol Alegria há um pouco dos dois.

Cotação *** ½

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