CRÍTICAS ESTREIAS

A Trama: Palavras que ferem

O cineasta francês Laurent Cantet levou a Palma de Ouro em Cannes 2008 por Entre os Muros da Escola, uma pequena obra-prima sobre professor e alunos de um colégio na periferia de Paris. Com diálogos preciosos, Cantet transforma a sala de aula no microcosmo de seu país, uma nação em que a mescla de raças, crenças e culturas está longe de encontrar harmonia.

Já no belíssimo Retorno à Ítaca (2014), o cineasta reúne amigos de juventude sessentões no topo de um prédio de Havana, onde reencontram um dos membros da turma, que volta a Cuba após exílio de 16 anos. Mais uma vez, Cantet afina o texto em uma trama de acertos de contas verbais e emocionais.

Pois em A Trama, destaque da Mostra SP 2017, ele conversa com os dois filmes anteriores. A relação mestre e pupilo volta ao centro, mas o espaço restrito agora não é nem uma sala de aula nem um terraço, mas a comuna La Ciotat, um canteiro naval que teve dias prósperos, entrou em decadência e levou junto toda a população da região.

Os jovens que a escritora Olívia (Marina Foïs) pretende ensinar a escrever um romance policial no curso de verão são fruto de uma geração perdida, e estão eles próprios sem expectativas de futuro. Cantet trabalha novamente a representatividade. O grupo inclui negros, brancos e árabes, e a palavra é a arma da discórdia. Repare que Olívia é parisiense, da elite, e o painel da disparidade social também se ilumina.

A professora fica intrigada com Antoine (o estreante e promissor Matthieu Lucci), que parece ser o mais talentoso da oficina literária, mas também um provocador nato. A tensão cresce sem pressa, enquanto discutem ideias  para o thriller, com debates acalorados sobre possíveis cenários, vítimas e assassinos.

Esse embate é instigante por si só, mas é a relação entre Olívia e Antoine que vai deixar o público pregado na cadeira. Sim, porque Cantet domina os signos do suspense policial em sua própria narrativa. Parece conduzir o enredo para um lado, para então desviar para outro, e supreender com opções muito pé no chão. Essa sobriedade torna A Trama um filme ainda mais poderoso.

 

 

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