CRÍTICAS ESTREIAS

Uma Mulher Fantástica: Um corpo que cai

Como qualquer espectador da atual novela das 9 pode testemunhar, o processo de adaptação de gênero de uma pessoa trans é um tema rico do ponto de vista narrativo. No entanto, há muita história para se contar após a conclusão de tal etapa pessoal. É isso que se vê no chileno Uma Mulher Fantástica, ganhador do prêmio de melhor roteiro no último Festival de Berlim.

O longa conta a história de Marina (Daniela Vega), uma cantora trans que perde o marido (Francisco Reyes, de Neruda) por conta de um aneurisma. Durante o socorro prestado ao empresário, ele cai de uma escadaria, o que levanta suspeitas sobre a participação da esposa em sua morte.

Esse é o estopim para uma jornada na qual a homofobia é uma presença constante. Mesmo quando a protagonista está diante de uma pessoa simpática a pautas progressistas, o medo da opressão está lá, como uma assombração. Uma vez que o filme adota o ponto de vista de Marina, o espectador também está sujeito a esse desconforto.

Assim, o roteiro se desenvolve de forma que sempre se mostre situações que ganham uma nova camada de complexidade apenas pelo fato de Marina ser trans. O objetivo é deflagrar o quanto a falta de aceitação social interfere negativamente em diversos aspectos da vida dela. Seja no lidar com a família e a ex-esposa cis (Amparo Noguera, de No) de Orlando, seja nas investigações acerca da morte dele.

A atmosfera dramática é reafirmada pelo uso preciso e consciente da trilha, com um tema reutilizado em momentos bem selecionados, e inserções de canções conhecidas. Há momentos em que a letra das músicas conversa com o teor emocional estampados na tela, que não é percebido por espectadores que não as conhecem, pois não há legendagem das letras.

Outra ferramenta audiovisual para salientar os dilemas de Marina é a concepção de cenas com teor onírico. Nesse aspecto, Uma Mulher Fantástica se apoia no competente trabalho de direção de fotografia e arte.

É em suas pequenas ousadias estéticas, em sua trilha marcante, e no arco dramático da protagonista que encontramos pontos de contato entre o filme chileno e a obra de Alfred Hitchcock. Durante todo o redemoinho de emoções que a cantora experimenta, ela vê o espectro do amado, de forma semelhante aos que ocorre com o personagem de James Stewart em Um Corpo que Cai (1958). Entre os objetos pessoais deixados por Orlando, está uma misteriosa chave numerada, que serve como McGuffin do roteiro.

Portanto, Uma Mulher Fantástica presenteia seu público com uma produção de forte teor social, o que por si só já é louvável Contudo, o filme é o que se pode imaginar do resultado de uma imersão de Hitchcock no tema da transfobia.

Cotação: **** ½

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