CRÍTICAS ENTREVISTAS ESTREIAS

Uma Noite em Sampa: Medo que paralisa

Um grupo vindo do interior de São Paulo sai de um espetáculo no Teatro Ruth Escobar e está prestes a pegar o ônibus fretado para voltar ao lar quando descobre que o motorista sumiu. Esquecidos no centro da cidade, com um frio danado e a crescente sensação de insegurança, os turistas – entre eles paulistas que deixaram a capital – têm reações diversas à situação. Essa cena tragicômica é criação do cineasta Ugo Giorgetti, que investe em diálogos ágeis e tipos idiossincráticos para armar um painel da paranoia da classe média diante da violência urbana.

Uma Noite em Sampa tal como eu o concebi era uma comédia sobre o medo. O medo que se apossou de cada cidadão desta cidade, cheia de condomínios fechados e carros de vidros escuros. Um medo que não faz diferença entre perigos reais e imaginários”, explica o cineasta, em texto escrito com exclusividade para PREVIEW. “Os personagens desse filme, se andassem apenas três ou quatro quadras, encontrariam auxílio e um modo de sair dali. Mas o medo é tão grande, a noite tão ameaçadora nas suas cabeças, que ficam paralisados. Não fazem nada e esperam.”

Noite em Sampa

São Paulo sempre exerceu um fascínio particular sobre Giorgetti. Já em seu primeiro longa, Jogo Duro (1985), ele se debruçou sobre marginalizados que disputam a ocupação de uma casa em um bairro nobre da cidade. Depois vieram títulos como Festa (1989), Sábado (1995), Boleiros (1998) e Cara ou Coroa (2012), nos quais Giorgetti agrega São Paulo como personagem de suas histórias. O diretor rodou Uma Noite em Sampa durante 11 noites. “Começávamos quando o teatro real terminava seus espetáculos regulares e íamos com a nossa comédia até às 5 horas da manhã. Os espectadores que saiam do Ruth Escobar nos olhavam com certo espanto. Alguns tinham dificuldade em entender o que fazia aquele pessoal, que parecia também espectadores, gente como eles”, relata.

O elenco é eclético, com nomes como Andrea Tedesco, Flavia Garrafa, Roney Facchini, Otávio Augusto, André Correa e Cris Couto. Giorgetti transforma inclusive manequins em personagens, para escancarar esse medo que paralisa. É uma obra curiosa, por vezes caricata e de ritmo inconstante, mas o diretor mantém o humor sempre elevado. “Fizemos uma comédia tentando restaurar e dignificar o prestígio que o gênero sempre teve na longa tradição do teatro e do cinema. O riso tem de ter um significado. Por coincidência, até o atraso do lançamento do filme acabou por favorecê-lo. Acabou por colocá-lo ao lado e a par dos últimos acontecimentos no Brasil. Por um desses caprichos do destino, deu ao filme um significado adicional, muito mais amplo do que se previa”, finaliza.

Cotação: **1/2

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