CRÍTICAS ESTREIAS

White God é uma brutal metáfora da exclusão

Filmes com crianças e animais geram uma comoção natural, seja uma produção da Disney ou uma pancada no estômago como este White God (2014). É provável que os amantes mais sensíveis de cães saiam revoltados antes do fim da sessão, porque os cachorros passam por maus bocados nessa obra do húngaro Kornél Mundruczó, vencedora da Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes 2014. Os cães Luke e Body, que interpretam Hagen, ganharam a Palma Dog, que existe desde 2001, destinada ao melhor ator canino dos filmes da seleção oficial do festival – e aqui podemos falar em atuação, pois o que eles fazem em cena não é normal.

George Orwell (1903-1950), autor do clássico A Revolução dos Bichos, ficaria admirado com essa versão canina da revolta animal. Mais que um ataque ao totalitarismo, como aquela fábula suína, White God é um grito (ou latido) contra o preconceito e a exclusão. Basta olhar para o mundo hoje, e não se deve restringir à questão dos refugiados na Europa, para compreender a urgência dessa história tão atual. E ela começa com Lili (Zsófia Psotta), uma menina de 13 anos, andando com sua bicicleta por uma Budapeste absolutamente deserta. Lili está à procura de seu cão, Hagen.

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Na sociedade distópica criada pelo cineasta, a criação de cachorros implica no pagamento de uma taxa especial, e os mestiços, como o vira-lata Hagen, não têm vez e devem ser tirados da rua. Depois que a mãe vai passar uma temporada fora com o novo marido, Lili fica aos cuidados do pai, que obriga a filha a abrir mão do animal e o abandona no meio da rua. A garota, que tinha no cachorro um amigo fiel para ajudá-la a atravessar a adolescência, entra em parafuso. Não dá para ficar imune a seu olhar desamparado.

A partir daí a trama se bifurca e segue em paralelo. Tanto Lili quanto Hagen não aceitam e não sucumbem à realidade opressora. Ela, com seu corpo diminuto, peita o pai e o professor de música, representantes óbvios do totalitarismo. A jornada de Hagen é ainda mais cruel, pois ele é capturado por um pedinte e comprado por um sujeito que participa de lutas ilegais de cães. O dócil Hagen será treinado para matar, e essas sequências são pra lá de indigestas.

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O diretor flerta com o cinema-catástrofe e a volta por cima, da garota e do cachorro, é tão assustadora quanto emocionante. Apesar da contundência do tema, o enredo é pouco inovador e as mensagens engajadas se espalham pela narrativa em símbolos de fácil identificação. Não há nada de hermético em White God. Sua majestade está na forma como Mundruczó banha de delicadeza e lirismo uma história tão inquietante e violenta.

Cotação: ***1/2

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