ENTREVISTAS ESTREIAS

10 Segundos Para Vencer: Como se faz um campeão

Olha que coincidências curiosas. Há uns oito anos, na época em que filmava Boca em São Paulo, Daniel de Oliveira tomava banho quando teve um insight de que iria viver Éder Jofre na telona. “Senti isso debaixo do chuveiro e dei um soco no azulejo”, revela o ator em coletiva de imprensa durante o Festival de Gramado, em agosto. “Consegui o contato dele, me apresentei como o ator que tinha feito Cazuza no cinema e disse que gostaria de interpretá-lo, mas ele respondeu que já tinha alguém tocando um projeto sobre sua vida, e ali tudo acabou pra mim, a ideia adormeceu.”

Cerca de dois anos antes, o dramaturgo e produtor de teatro Thomas Stavros teve um sonho em que era chamado de Éder Jofre por diversas pessoas. “Acordei enlouquecido para saber mais sobre esse cara, mas Éder foi reticente e nem quis me atender”, conta Stavros, na mesma entrevista. “Pouco depois ele me ligou, queria me conhecer e expliquei que trabalhava com teatro e não era famoso, e então ele disse ‘Olha garoto, antes de ser campeão do mundo eu não era ninguém, passa aqui em casa pra gente conversar’, e eu fui.”

Agora protagonista e roteirista de 10 Segundos para Vencer, Oliveira e Stavros encaram com humor as artimanhas do destino. Dirigido por José Alvarenga Jr. (Divã), o filme saiu do Festival de Gramado com dois Kikitos, melhor ator coadjuvante para Ricardo Gelli e melhor ator para Osmar Prado. Nascido em São Paulo há 82 anos, o lutador foi o único brasileiro a conquistar o título de campeão mundial de boxe em duas ocasiões: o de peso-galo e peso-pena.

O filme tem um prólogo em que um Éder ainda garoto observa a relação de Kid com o cunhado, Zumbanão (Ricardo Gelli), um lutador talentoso, mas “porra louca”, nas palavras do roteirista. Para o diretor Alvarenga Jr., esse início serve para apresentar a figura da antítese do boxe. “O Éder só foi o que foi porque era extremamente disciplinado, seguia as regras, era um estrategista do boxe”, comenta.

“O Zumbanão serve como exemplo do que o Éder não tinha de fazer para ser campeão. Através dele também apresentamos o estilo rígido e austero de Kid como pessoa e treinador, e quando o menino decide lutar já sabe que terá de conviver com aquele nível de exigência.”

A relação pai e filho, treinador e lutador, é o cerne da narrativa. Diferente de Éder, cuja trajetória está muito bem documentada – há inclusive cenas das lutas reais no filme -, pouco se sabia sobre Kid. “Usei minha memória emotiva, de conflitos que estabeleci com meu pai”, revela Osmar Prado. Enquanto Kid desestimulou Éder a seguir os estudos de desenho arquitetônico para lutar, o pai de Prado era contra a carreira artística. “Tivemos embates violentos de amor e ódio.”

Daniel de Oliveira se preparou com Cesário Bezerra, ex-treinador de Anderson Silva e dono de uma escola de boxe no Rio de Janeiro. Toos os lutadores do filme são profissionais. Quem assina a fotografia é Lula Carvalho (Tropa de Elite), que sabia que o registro de uma luta de peso-pena tem um ritmo completamente diferente do que se está acostumado a ver no cinema.

Alvarenga Jr. explica que os pesos-pesados dão três golpes por segundo, o que permite coreografias em câmera lenta, enquanto o peso-pena dá sete socos por segundo. “É uma troca de golpes incessante”, afirma.  “O desgaste físico era enorme, Daniel tomava porrada mesmo e deu trabalho para nossa maquiagem”, ressalta o cineasta.

Embora Éder Jofre tenha sido um herói nacional naquela época e seja um ídolo dos fãs do boxe, o diretor sabe que a nova geração pode nem saber de sua existência. “O filme fala de boxe, mas a porta de entrada para o público que não conhece o lutador é a relação pai e filho, esse chefe de família durão que aos poucos deixa a ternura aflorar”, diz.

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