ENTREVISTAS ESTREIAS

André Pellenz conta tudo sobre os bastidores de Gosto se Discute

Minha Mãe é uma Peça: O Filme foi a produção nacional mais assistida de 2013, com 4,6 milhões de espectadores. Detetives do Prédio Azul: O Filme atraiu mais de 1 milhão aos cinemas e por enquanto é o maior sucesso nacional de 2017. Por trás da adaptação da peça de Paulo Gustavo e da série infantil do canal Gloob, André Pellenz fica encabulado quando PREVIEW pergunta qual o segredo de seu toque de Midas. “Não, nada disso, mas acho que o cinema precisa chegar ao público”, ele diz. Diretor de curtas e séries de TV, como 220 Volts, Pellenz também atuava na publicidade. “Era uma pequena vida dupla, um pagava as contas e no outro eu brincava, agora já dá para ficar só de um lado”, revela. Este mês ele estreia seu terceiro longa, Gosto se Discute, comédia de dar água na boca, literalmente.

Em seu primeiro protagonista na telona – já era hora -, Cassio Gabus Mendes interpreta Augusto, famoso chef do Gusto, restaurante que já viveu dias de glória e agora amarga a decadência e a concorrência do food truck de um chefe rival, Patrick (Gabriel Godoy), instalado bem na frente. Para piorar, o banco sócio da casa envia uma auditora, Cristina (Kéfera Buchmann), com a missão de revolucionar o local. O chef precisa provar que ainda está em forma, só que o estresse é tanto que ele perde o paladar justamente no momento de elaborar um novo cardápio.

Fã do cinema italiano, especialmente das comédias, Pellenz conta que seu olhar bateu com o de Paulo Gustavo na hora de transportar Dona Hermínia para a tela grande. “Estávamos em sintonia sobre fazer uma comédia familiar com humor e emoção”, explica. “Em D.P.A. bebi na fonte de Tintim, cujas aventuras marcaram minha infância.” Gosto se Discute é comédia sutil. “Até poderia ser um drama, mas da forma como tenho encarado o mundo hoje, acho que precisamos colocar humor nas coisas.”

Embora a trama do chef sem paladar possa remeter ao cineasta que perde a visão criado e interpretado por Woody Allen em Dirigindo no Escuro (2002), Pellenz garante que a inspiração veio de uma experiência pessoal. De cozinha ele entende pouco, mas quando começou a pensar no filme, há uns cinco anos, a febre da gastronomia estava prestes a ferver. “Fazer um filme nesse universo não foi meu motor, mas era o assunto da vez e isso me despertou. Assisti a inúmeros filmes sobre gastronomia e percebi que esse mundo tem muito a ver com o meu”, afirma. A história é alegoria de uma crise profissional que enfrentou. “A perda do paladar significa um momento em que você sente que não tem recursos, que está sem suas ferramentas, é um sentimento de impotência.”

Kéfera e Cassio

Segundo o diretor, cinema e culinária são arte e negócio. “O chef e o cineasta podem servir o prato ou o filme que quiser, mas precisam fazer dinheiro, lidar com sócios ou produtores e ainda atrair público”, compara. “Identifico-me com o  Augusto quando ele tem de negociar o cardápio com o sócio capitalista, quando precisa fazer concessões e mudar o tempero para atrair público, e em sua busca pelos ingredientes ideais”, afirma. “Não adianta eu sonhar com um ator, meu ingrediente, se ele não está disponível, não quer fazer o filme ou é muito caro.”

Assim como o chef resiste às mudanças exigidas pela auditora Cristina, Pellenz conta que tinha dificuldade em aceitar que às vezes é preciso encarar as coisas de outra maneira. Ele pontua, porém, que Augusto busca uma solução para a crise sem abrir mão de sua essência. “Estou cansado desses filmes que seguem a tradicional regra de roteiro que determina que os personagens precisam mudar. Mas é verdade que na vida a gente se apega a alguns detalhes que nos parecem fundamentais, quando não são.”

Cassio e Pellenz nos sets

Para dar forma ao universo da cozinha, profissionais se misturaram ao elenco. O preparo de pratos exóticos é uma verdadeira coreografia, fruto da direção de arte de Claudia Terçarolli em conjunto com o chef Celso Lacerda. O cardápio dos Orixás, fundamental na trama, só existe no Brasil e já foi servido pela chef Bel Coelho no Clandestino. “Gustavo poderia criar qualquer cardápio, mas busquei algo único daqui”, diz Pellenz. “A Bel me ajudou na abordagem dos orixás, que hoje transcendem a Umbanda e o Candomblé e são parte da cultura brasileira.”

À vontade como chef, Cassio Gabus Mendes fez treinamento no Mani, da chefe Helena Rizzo. Outros atores trabalharam como garçons no Ruella, para aprender o manejo com os pratos. Já a presença de Kéfera Buchmann é curiosa. “Sempre quis o Cassio e a Kéfera fez teste, não veio por causa do canal do YouTube, então estou juntando uma atriz revelada no que há de mais novo com um cara extremamente clássico. Essa mistura me agrada”, comenta. “Christopher Nolan não escalou o cantor do One Direction (Harry Styles) para Dunkirk à toa e outros cineastas acertaram ao fazer escolhas inusitadas para o elenco.” Agora é esperar para ver se os ingredientes vão cair no gosto do cliente.

 

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