ENTREVISTAS ESTREIAS

Artista do Desastre: Quando o ruim é bom

Excêntrico é pouco para descrever Tommy Wiseau. Enigmático talvez seja melhor. Até hoje pouco se sabe sobre o diretor de The Room, que estreou em 2003 e era tão ruim que ganhou status de cult. Há inclusive teorias conspiratórias na internet sobre a fonte da fortuna de Wiseau e até mesmo a origem de sua família. A fama gerou comparações a Ed Wood, que nos anos 40 ganhou o crédito de “pior cineastas de todos os tempos”. Tim Burton contou sua história em Ed Wood (1994), estrelado por Johnny Depp e vencedor do Oscar de ator coadjuvante para Martin Landau, que fazia Bela Lugosi, o célebre intérprete de Drácula.

Não há vampiro em Artista do Desastre, embora a bizarra figura de Tommy Wiseau tenha um quê do Conde Vlad. Quem conta sua história é James Franco, que também veste a pele do protagonista. E vestir a pele aqui significa usar lentes de contato, próteses faciais e uma cabeleira rebelde. O filme concorre ao Oscar de roteiro adaptado e a fonte foi o livro The Disaster Artist, coescrito por Greg Sestero, amigo de Wiseau e grande parceiro na epopeia que foi filmar The Rom. Irmão caçula de Franco, Dave Franco (Vizinhos) interpreta Sestero e o elenco ainda tem o parça do cineasta, Seth Rogen, além de inúmeras participações especiais – nada de spoiler.

Artista do Desastre é uma das sensações do cinema independente deste ano. A crítica adorou, James Franco ganhou o Gotham de melhor ator, mas bastou levar também o Globo de Ouro que o mundo caiu, com acusações de assédio. Franco foi do céu ao inferno em um segundo. Essa entrevista, ele deu quando ainda estava no auge. E, sim, o filme é muito bom.

O que Tommy Wiseau tem de tão especial a ponto de você querer contar sua história?

JAMES FRANCO – Eu não fiz parte da plateia que assistiu a The Room em um cinema de Los Angeles, onde ficou em cartaz por diversos anos. Havia visto aquele letreiro do filme, com o rosto enorme de Tommy, aquela pálpebra caída e um número de telefone abaixo. A imagem era meio misteriosa e não percebi que se tratava do outdoor de um filme. Quem coloca o número do telefone em um cartaz de cinema? O que realmente me chamou a atenção foi o livro The Disaster Artist: My Life Inside The Room, The Greatest Bad Movie Ever Made, cujos direitos comprei assim que acabei de ler. Adoro histórias de Hollywood e aquela era muito insana. À primeira vista, parece uma versão contemporânea de Ed Wood, mas Tommy é muito mais louco do que ele.

Louco como?

 O que ele fez em The Room era impraticável, a começar por filmar com uma câmera de alta definição e outra de 35 mm ao mesmo tempo. As filmagens demoraram oito meses e o set era no estacionamento de uma loja de aluguel de equipamentos de cinema. Tudo na história era maluco. O que Greg Sestero fez com perfeição foi limar toda aquela insanidade, que poderia tornar o livro apenas uma reunião de anedotas sobre o comportamento de Tommy, e transformá-lo em uma inesperada história universal. No filme, nós procuramos também focar no lado humano para que o público não risse de Tommy, mas sim sentisse empatia. Todo mundo que vem para Hollywood chega como forasteiro. O que tentamos captar é o desejo de ser aceito, de realizar seus sonhos. Esse sentimento é universal.

Como foi seu primeiro encontro com Tommy pessoalmente?

Nosso primeiro encontro cara a cara ocorreu durante as filmagens. Eu evitava falar muito com ele por temer que não aprovasse algumas coisas, como a ideia de eu interpretá-lo. Ele queria Johnny Depp, mas argumentei que seria impossível pagá-lo. Tommy é um grande fã de James Dean e, olha a coincidência, eu interpretei Dean em um filme para a TV. Mesmo assim, quando Greg (Sestero) sugeriu que eu fosse o protagonista, Tomy disse “Você fez coisas boas e outras ruins” (risos). Ele praticamente não participou das filmagens, mas colocou no contrato que faria uma aparição em uma cena comigo como Tommy. Foi no dia de rodar essa cena que nos conhecemos pessoalmente. Ele estava todo disfarçado, com cabelo preso e bigode falso. Estávamos apreensivos porque não tínhamos ideia de como seria e no fim ele foi super gente boa e conquistou a todos, principalmente Set Rogen.

 O que houve com o cameo dele?

A cena até estava no primeiro corte, mas decidimos tirar. Acontece que fizemos algumas refilmagens quadro a quadro do The Room, que ficaram muito legais e planejamos colocar nos crédito, com as verdadeiras ao lado. Só que não tínhamos o direito de uso das imagens do original, então era preciso negociar com Tommy. Ele disse que cedia as imagens se o cameo fosse inserido. Bem, não está no filme, mas no fim dos créditos, como uma cena extra. Os fãs de The Room vão adorar

Como se preparou para o papel?

Greg Sestero, que conhece Tommy há duas décadas, foi uma fonte preciosa. Ele me contou tudo o que eu queria saber sobre Tommy, inclusive coisas que não estavam no livro. Greg também forneceu gravações de Tommy e esses áudios tiveram valor enorme. Tommy tinha o estranho hábito de gravar todas as suas conversas telefônicas e também saía dirigindo por Los Angeles para gravar seus pensamentos. São momentos íntimos que me ajudaram a capturar sua voz, o modo de falar, assim como conhecer suas ambições e sentir sua solidão. Aquilo era melhor que qualquer diário, porque havia emoção por trás do que falava. Nem sei quantas vezes ouvi esses áudios, mas todo esse material me ajudou a compreender Tommy como um sonhador. Ele me fez lembrar que quando a gente quer algo e escuta um não, tem duas opções: aceitar ou arrumar outra maneira de realizar esse sonho. Por isso respeito muito Tommy por ter feito The Room do jeito que ele queria. Milhões de pessoas vêm a Hollywood e vão embora sem sucesso. The Room continua sendo assistido.

Você tomou alguma licença poética no retrato da jornada de Tommy?

Não fizemos grandes mudanças, mas em alguns momentos decidimos pegar mais leve porque era capaz de a plateia não acreditar que as coisas aconteceram daquela forma. Não tivemos de inventar praticamente nada, porque  nossa fonte era a mais confiável: Tommy. Há uma alteração em uma cena já no fim do filme. Como muitos sabem, The Room se tornou cultuado e divulgado pela mídia, mas isso levou um bom tempo. Em Artista do Desastre, encurtamos esse processo e o filme se torna um fenômeno na noite de estreia.

O que espera da reação do público que é fã e que nunca ouviu falar de The Room?

Se você é fã, vai descobrir e se divertir com Easter eggs, mas não é preciso ver The Room para gostar de Artista do Desastre. Exibimos o filme no Festival de San Sebastian, na Espanha, onde The Room nunca estreou, e o público se matou de rir. Ganhamos o prêmio de melhor filme. É aquilo que falei, da identificação com esse cara sonhador tentando ser aceito e ter sucesso. Todos temos algo de Tommy.

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