ENTREVISTAS ESTREIAS

Breno Silveira fala de Entre Irmãs, seu épico feminino e intimista

Depois de retratar fortes personagens masculinos em 2 Filhos de Francisco, Era Uma Vez, À Beira do Caminho e Gonzaga –  De Pai pra Filho, Breno Silveira  traz para a linha de frente a emocionante história de duas irmãs, Luzia e Emília, que seguem destinos antagônicos no Nordeste da década de 30. Na pequena Taquaritinga, as irmãs crescem sob os cuidados da tia, que lhes ensina um ofício: costurar. Marjorie Estiano interpreta Emília, que sonha encontrar um príncipe encantado e mudar para a capital pernambucana. Nanda Costa vive Luzia, que ficou com o braço aleijado após um acidente e não tem grandes expectativas a não ser sobreviver na caatinga. Dois acontecimentos transformam a vida da dupla: a presença de Degas (Rômulo Estrela), jovem advogado que vem de Recife visitar o filho do fazendeiro para quem as moças prestam serviço, e a chegada de um bando de cangaceiros chefiado pelo temido Carcará (Julio Machado).

Entre Irmãs é inspirado no livro A Costureira e o Cangaceiro, de Frances de Pontes Peebles, que Silveira descobriu quando fazia pesquisas para o projeto de um longa sobre Lampião. O interesse pelo cangaceiro começou quando filmava a cinebiografia do Rei do Baião, Luiz Gonzaga. “Sempre achei mais instigante contar a vida do protagonista através de outro prisma – do pai em 2 Filhos de Francisco, e do filho, em Gonzaga.  Gosto deste olhar na paralela, de alguém que acompanhou a trajetória do personagem principal”, diz o diretor à PREVIEW. “A primeira ideia foi narrar a vida de Lampião através de Maria Bonita, mas o material disponível sobre ela era mínimo.” Ele viu na obra de Frances a possibilidade de contar a história de um cangaceiro e de sua época através do olhar feminino de duas personagens tão fortes quanto diferentes. Roteirista de todos os filmes de Silveira, Patrícia Andrade assumiu o roteiro.

A personagem Luzia não é apenas Maria Bonita, mas um amálgama de outras mulheres do cangaço, entre as quais Dadá. Da mesma forma, Carcará é um combo de Lampião, Corisco e outros cangaceiros. “Isso para mim foi maravilhoso, pois sempre trabalho com histórias reais, então tenho uma aqui uma ficção baseada em fatos.” Silveira ressalta que não há foco maior em Luzia. “São duas protagonistas e nunca pensamos em dar força a uma das histórias, e esse equilíbrio existe no livro também”, diz. “As irmãs são separadas pela vida e enfrentam o preconceito e o machismo, uma por parte da alta sociedade na cidade grande, e a outra de um grupo de renegados no interior, mas, apesar da distância, elas sabem que uma só tem a outra no mundo.”

Julio Machado como Carcará

ARTIMANHAS DO DESTINO

Em 2011, o diretor ficou viúvo de Renata, que morreu de câncer e a quem ele dedicou À Beira do Caminho. “Sempre vivi rodeado por mulheres, com minha esposa e nossas duas filhas, e o universo feminino é muito lindo e curioso. Como são os laços emocionais que regem minhas escolhas, fazer Entre Irmãs foi um caminho natural”, afirma. Embora ambientada nos anos 30, a trama é atual na abordagem da posição da mulher na sociedade. “A autora do livro é mulher, a roteirista que adaptou é mulher e as protagonistas são duas mulheres”, pontua.  O que ele acha mais inusitado é o fato de suas duas filhas terem marcas de Emília e Luzia. “Uma delas adora moda, sabe costurar e está fazendo um curso em Paris. É do tipo sonhadora, como eu. Já a caçula é atirada como a Luzia, destemida, se joga sem medo nas coisas, e isso me ajudou demais a realizar o filme.”

As filmagens do sertão foram rodadas no interior de Alagoas, na cidade de Piranhas, e algumas coincidências foram decisivas na escolha das locações. “Viajei por duas semanas atrás do lugar para filmar e quando cheguei em Piranhas senti que a história estava muito viva”, relata. Em conversa com um historiador local, o diretor soube que Lampião passara por ali e roubara as joias de uma baronesa. Descobriu também que foi na frente de Piranhas, do outro lado do rio, onde o cangaceiro morreu. E mais: a própria Frances havia estado na região pesquisando para o livro. “Pouco depois, parei em um ponto onde achei lindas pedras vermelhas e decidi rodar ali a cena final do Carcará. Acredita que me contaram que Lampião usava aquele lugar como acampamento? O destino estava conduzindo a história.”

Para a casa onde Emília se muda quando vai morar na cidade grande, a equipe restaurou uma residência abandonada que o diretor encontrou em Olinda. “A casa estava caindo aos pedaços, mas achei o dono e ali dentro havia objetos e mobílias, como o santuário na entrada, que estão no filme”, revela. “Nunca filmo em estúdio, acho que tem uma verdade dentro dessas paredes e desses sertões que trazem uma energia especial para toda a equipe.”

Breno e Nanda em locação

GRANDE EM TUDO

Entre Irmãs tem 2h40 de duração e a grandiosidade não está apenas no tempo. As filmagens contaram com uma equipe de 90 técnicos e mais de 200 figurantes participaram da produção, que inclui cenas de batalha. “Várias vezes me perguntei se não era uma loucura fazer um épico dessa dimensão em um momento tão complicado do País.” Fotógrafo de formação, o cineasta acredita que um projeto como esse pede a telona “Algumas histórias precisam ser contadas em tela grande, para transportar o público para outro lugar, outra realidade.”

Segundo Silveira, mais do que explorar a questão cangaço, seu desejo era fazer um épico focado no íntimo das duas personagens. “O filme precisa ser épico nos sentimentos, não no tamanho da produção”, defende. Antes de começar a rodar, reuniu a equipe e discursou: “Estamos fazendo um épico sim, um filme gigantesco, enorme, vai ser um caos, mas não podemos perder a noção de que isso está sendo contado por duas mulheres, o prisma nunca é masculino, não interessa se tem batalha, se tem zepelim, tudo o que acontece é filtrado pelo olhar delas, cada uma do seu jeito”. Ele sabe que fez um filme longo, mas queria mais. “O universo que aborda é tão rico, a vida delas tão extraordinária e seus temas tão contemporâneos, que lamentei ficar em 2h40. Por mim o filme teria 3 horas.”

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