ENTREVISTAS ESTREIAS

Carolina Jabor fala sobre o linchamento virtual em Aos Teus Olhos

Rubens (Daniel de Oliveira) é um cara descontraído, do tipo que faz brincadeiras apimentadas e não dá muita bola para regras básicas, como não fumar no vestiário do clube em que trabalha como professor de natação infantil. É ali que ele aparta uma discussão entre alunos e um desses meninos diz para a mãe que Rubens lhe deu um beijo na boca. Pronto. O circo está armado. Aos Teus Olhos é um registro das 24 horas seguintes à denúncia feita pelo pai (Marco Ricca) do garoto, seguida por postagem nos grupos de mensagens e na internet. O linchamento é tão imediato e tempestuoso que  mesmo as pessoas mais próximas a Rubens, como a diretora da escola (Malu Galli) e um colega de trabalho (Gustavo falcão), não sabem como lidar com a situação.

Depois do elogiado Boa Sorte, um dos melhores momentos da carreira de Deborah Secco, a diretora Carolina Jabor (filha de Arnaldo Jabor) faz outro mergulho em seus personagens. Inspirado na peça ​​espanhola O Princípio de Arquimedes​, ​de Josep Maria ​Miró, Aos Teus Olhos foi o grande vencedor da Mostra SP 2017 e saiu com quatro troféus do Festival do Rio: melhor filme pelo voto popular, roteiro (Lucas Paraizo), ator (Daniel de Oliveira) e ator coadjuvante (Marco Ricca). Carolina estava bem animada com a estreia nessa conversa com PREVIEW.

Carolina Jabor

Como Aos Teus Olhos conversa com Boa Sorte?

CAROLINA JABOR – Os dois filmes se encontram por tratar de assuntos da nossa atualidade. Tenho grande interesse em refletir sobre os valores que a gente tem encontrado e vivido. Quando a realidade começa a ficar muito pesada, trágica e dramática, a ficção precisa participar disso de alguma forma. Então esse segundo filme, principalmente, é contextualizado com uma nova forma de comunicação que transforma toda uma sociedade e também com o pré-julgamento, que é muito grave.

O filme estreia em uma época em que o poder das redes sociais está no centro do debate, em especial as fake news.

A informação gira muito rápido, as coisas tomam proporções muito grandes para o bem e para o mal. No filme a gente fala da condenação de uma pessoa sem provas.

É interessante que a trama se desenrola durante 24 horas, então essa urgência não dá tempo ao protagonista de construir uma defesa.

A rapidez com que a questão viraliza é impressionante. Todo mundo pode postar e o raio de alcance é enorme e imediato. Isso torna tudo muito intenso.

Foto: Daniel Chiacos

O personagem do Daniel de Oliveira é ambíguo e embora a tendência seja apostar em sua inocência, essa certeza não existe.

Ele é pego desprevenido. Na minha cabeça, Rubens é um rapaz normal, que acabou de comprar seu carrinho, tem uma namorada, dá aula de natação e curte ouvir música. Só que é interrompido, atropelado por uma acusação com a qual não sabe lidar. Quando se dá conta, sua vida foi transformada.

Essa temporalidade já estava definida no roteiro?

Sim e enquanto na peça original havia uma sugestão bem de leve das redes sociais, no roteiro colocamos isso em primeiro plano, com o linchamento virtual. Na peça tudo se passa dentro do clube de natação e o escândalo sendo comunicado entre os pais, até o ponto em que o clube é apedrejado com o professor dentro.

O roteiro do Lucas Paraizo tem muito em comum com o de A Caça, de Thomas Vinterberg, justamente sobre um caso de suposto assédio de um professor. Assistiu a esse filme?

Além de A Caça ser uma obra-prima (risos), a diferença crucial entre os dois é que em A Caça você sabe o tempo inteiro que o personagem é inocente, mas se vê incapaz de se defender porque as pessoas não consideram ouvi-lo. Você espectador fica ao lado dele, e todo o resto contra. É um filme sobre a inocência, enquanto Aos Teus Olhos é sobre a ambiguidade do ser humano e sobre o linchamento, o pré-julgamento pelas redes sociais, e aqui pode ser que ele tenha passado a linha, não fica claro.

O quanto o Daniel de Oliveira contribuiu no processo de construção do personagem?              

Daniel é um ator extraordinário, que consegue ser o bom moço e o vilão com a mesma intensidade. Quando resolvi adaptar a peça, liguei para ele e perguntei “Quando você pode fazer?” e ele respondeu “Quando é o filme”, e eu disse “Quando você puder fazer” (risos). Queria realmente ele no papel e é muito importante que essa ambiguidade permanecesse até o final. Se ele fosse somente inocente, seria um filme de injustiça, se fosse culpado, seria um filme de vingança, e queremos que o espectador crie a própria impressão da história. Daí o título, Aos Teus Olhos.

Marco Ricca também está incrível como o pai do menino. São atuações precisas e imagino que não haja espaço para improvisação em um filme assim.

Não, Deus me livre. Eu tinha 21 dias para rodar e um dos pré-requisitos da escolha do elenco é que fossem pessoas muito experientes, que conhecessem e dominassem a dramaturgia, que tivessem uma compreensão profunda de caracterização de personagem. Fizemos um trabalho de mesa de quase 20 dias de leitura. A intenção era fugir dos clichês. Se o pai tá indo lutar por justiça, ele deveria ser bruto? Não! Se o clichê seria o bruto, então vamos por outro caminho. A diretora do clube, em vez de ser aquele tipo que está no controle da situação, não consegue tomar partido.

Depois que realiza um filme como esse, sai transformada de alguma forma?

Claro. Primeiro que todo filme é uma nova aventura, porque não dá para saber como vai ser, é um desafio e estamos sempre a serviço da história. Só que não há uma fórmula para contá-la e nesse processo há sempre o ganho de uma experiência de dramaturgia. Nesse, para mim, foi a troca com o elenco. Foi muito intensa a direção de atores. Em Boa Sorte, eu estava grávida de seis meses e tive preparador de elenco, aqui eu assumi totalmente. Para um diretor, isso é muito forte.

 

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