ENTREVISTAS ESTREIAS

Comboio de Sal e Açúcar: Licínio Azevedo fala sobre filmar o próprio livro

Licínio Azevedo aprendeu com diretores como Jean-Luc Godard e Ruy Guerra que os filmes em Moçambique poderiam ir muito além do cinema-propaganda instituído no país pós-independência, e que não gosta de ser chamado de “cineasta engajado”. “Gosto de histórias sobre pessoas e suas histórias de amor, mas todas as histórias são políticas”, diz à Preview.

Licínio Azevedo

Baseado no livro homônimo que o próprio cineasta lançou em 1997, Comboio de Sal e Açúcar é uma coprodução moçambicana, brasileira e portuguesa, e se passa em Moçambique em plena Guerra Civil, em 1988. Um comboio que liga Nampula ao Malawi atravessa uma zona de guerra, mas a viagem é a única esperança para centenas de pessoas que precisam trocar sal por açúcar no país vizinho a fim de garantir sua sobrevivência e de suas famílias. Também é uma história de amor e guerra, com lendas sobrenaturais e foco no tema favorito de Azevedo – a condição das mulheres no país.

Residente em Moçambique há 40 anos, o diretor conta que na época da ditadura era impedido de publicar informações sobre a evolução da guerra pela independência. “Eu fui pra África convidado para atuar como jornalista e escritor no Instituto Nacional de Cinema de Moçambique (INC). Só depois de alguns anos comecei a fazer produções e direção de documentário”, afirma.

“O comboio era real, mas os personagens são fictícios”, revela. “Antes da guerra, era uma linha normal, depois começou a ser utilizada para este fim. A viagem era difícil, o comboio não andava a mais de cinco quilômetros por hora e parava à noite, quando era comum haver sabotagem. Por isso existia uma escolta militar, que o filme mostra, apesar de não ser exatamente algo em que se pudesse confiar, pois o perigo vinha tanto de dentro como de fora do comboio”, comenta.

“A guerra civil destruiu tudo, a cidade foi cercada e eu só podia sair se fosse acompanhado por militares, não havia absolutamente nada para comer, não havia nem água e luz, até mesmo o açúcar, do qual Moçambique era um grande produtor, desapareceu. As plantações foram destruídas, fábricas queimadas, então as mulheres descobriram maneiras de sustentar as famílias embarcando no comboio”, explica.

Quando o conflito cessou,  Azevedo entrevistou pessoas que viajavam em comboios. “Daí surgiu a ideia de produzir o livro, um romance com os relatos daquela gente que pegava o trem para trocar sal por açúcar, em busca de uma vida melhor”, explica. Comboio do Sal e Açúcar é seu terceiro longa de ficção, após Desobediência (2002) e Virgem Margarida (2012). “Depois desses dois me senti à vontade para adaptar o livro para os cinemas.” 

 INCIDENTES  

Segundo o cineasta, o trem usado no longa é um comboio da época, encontrado em um ferro velho. “Até mesmo o vagão blindado da escolta onde os militares ficavam estava podre, mas recuperamos tudo”, afirma. “Recebemos uma ajuda incrível da empresa ferroviária da região que conseguiu o trem para as filmagens e nos permitiu usar as linhas e estações.”

Durante as filmagens, uma das locomotivas desengatou do trem em uma subida e saiu descontrolada em alta velocidade. “Foi parar 100 metros fora da linha, atores que estavam dentro do vagão foram saltando pelos lados e alguns infelizmente ficaram feridos, mas por sorte ninguém morreu”, lembra. “Enquanto filmávamos, outra guerra teve início”, lamenta. “Está havendo um tratado de paz na região ao sul de Moçambique, mas ao norte se inicia outra guerra, com os islamistas que vêm de fora.”

Outro percalço envolveu a população local. “Era duro explicar para os moradores que toda a movimentação e os tiros que escutavam não eram reais”, relata. “Nossa equipe precisou fazer reuniões com líderes comunitários para evitar pânico, pois ninguém sabia o que era um filme e havia risco de fugirem pelo medo da guerra.”

O sucesso de bilheteria em Moçambique não surpreeendeu o cineasta. “As pessoas se interessam pela história de seu país, e como a produção cinematográfica local é ínfima, quando estreia um filme rodado lá todo mundo quer ver”, diz. “Apesar de termos poucas salas, o filme ficou cinco semanas em cartaz e superou o blockbuster Transformers”, ressalta.

Seguindo a tradição do cinema móvel no país, durante a Copa do Mundo na Rússia o diretor pretende utilizar um trem para exibir o filme de estação em estação nos dias em que não haverá jogos de futebol.

 

 

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