ENTREVISTAS ESTREIAS

Conheça os bastidores de The Post: A Guerra Secreta

Em 16 dezembro, O Estado de S. Paulo completou 3 mil dias sob censura. Desde julho de 2009, uma decisão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal impede o jornal de publicar informações da Operação Boi Barrica, que investigou negócios do empresário Fernando Sarney no Maranhão e de outros familiares do ex-presidente José Sarney. E o que isso tem a ver com o novo filme de Steven Spielberg, The Post: A Guerra Secreta, indicado aos Oscar de melhor filme e melhor atriz.

Em 1971, o The New York Times lidou com censura semelhante ao ser proibido dar continuidade à publicação de uma série de reportagens sobre 7 mil páginas de documentos secretos que vazaram do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, no caso conhecido como Documentos do Pentágono (Pentagon Papers). O calhamaço revelava com detalhes a forma como a Casa Branca mentiu ao público acerca do envolvimento americano na Guerra do Vietnã por mais de 20 anos.

A barragem à liberdade de expressão calou o The New York Times por um tempo, mas atiçou a equipe do The Washington Post, que amargou o furo do concorrente, mas tomou para si a missão de levar adiante a divulgação do material. Reparem que a censura foi decretada a pedido do governo, cujo presidente, Richard Nixon, renunciaria ao cargo em 1974 diante do escândalo Watergate, desta vez um furo de reportagem do The Washington Post.

Essa outra história chegou aos cinemas em 1976, no clássico Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula. Em 2003, o telefilme Segredos do Pentágono tinha James Spader na pele de Daniel Ellsberg, o funcionário do Pentágono que ajudou a elaborar o dossiê e, crítico da política do país no conflito vietnamita, retirou aos poucos as 7 mil páginas e as fotocopiou para entregar ao The New York Times.

 

Em The Post: A Guerra Secreta, Spielberg reconstitui esse evento  histórico pela perspectiva de Katharine Graham, a primeira diretora mulher do The Washington Post, e seu obstinado editor Ben Bradlee. Enquanto correm para ter acesso aos documentos, os dois devem superar as diferenças à medida que arriscam suas carreiras e a própria liberdade, porque havia risco de prisão caso publicassem a matéria sem a autorização do mesmo governo que pretendiam desmascarar.

Na pele de Bradlee, Tom Hanks retoma a longa parceria com o cineasta, que o dirigiu em O Resgate do Soldado Ryan, Prenda-Me Se For Capaz, O Terminal e Ponte dos Espiões, mas é sua primeira colaboração com Meryl Streep. Para a estrela, que interpreta Katharine, o projeto marca também sua estreia sob a batuta de Spielberg, que se debruça sobre dois temas graves e atemporais: a falta de liberdade de expressão e o machismo.

Segundo a produtora Kristie Macosko Krieger, “o filme é sobre o poder da verdade, mas também a história da transformação de uma dona de casa em chefe de uma empresa Fortune 500 (o Post integrava a lista da revista Fortune das 500 maiores empresas do mundo). É uma história pessoal dentro de um evento histórico.”

Um dos pontos de partida da corroteirista Liz Hannah foi o livro de memórias de Katharine, Uma História Pessoal. “Eu queria que sua voz fosse ouvida, mas não em uma cinebiografia”, explica. “Foi ao ler A Good Live, a autobiografia de Ben Bradlee, que entendi todo o processo do Pentagon Papers e vi que seria possível contar a história dessa parceria em um momento de evolução pessoal de Katharine.”

O The Washington Post foi comprado em 1933 pelo pai dela, Eugene Meyer, e em 1946 seu marido, Phil Graham, assumiu a direção. À Katharine restava a função de esposa e dona de casa, mãe de quatro filhos. Mas em 1963 Phil sucumbiu à depressão e cometeu suicídio. Aos 46 anos, Katharine contrariou todas as expectativas e assumiu ela mesma a direção do jornal, para então se tornar uma das mulheres mais influentes da época.

Sua vida chamou a atenção de Meryl Streep antes mesmo de Spielberg assumir o projeto. “Eu conhecia a personagem principalmente por Todos os Homens do Presidente, mas o papel de Kay no filme é pequeno. Foi o roteiro de Liz (Hannah) que me fez realmente sentir o sabor daquele tempo e ter noção da importância histórica de Katharine”, afirma a atriz.

Spielberg teve uma reação visceral quando leu o roteiro. Ele estava absorto na pós-produção de Jogador Número 1, sua nova ficção científica, mas tomou uma decisão inesperada. “A escrita de Liz, suas ideias, seu estudo crítico e especialmente o sensível retrato de Katharine me fizeram dizer ‘Eu posso estar louco, mas vou fazer outro filme imediatamente’. Estava arrebatado”, revela.

Como se não bastasse a sorte de reunir Meryl Streep e Tom Hanks em um cronograma tão apertado, Spielberg ainda conseguiu escalar Josh Singer, vencedor do Oscar pelo roteiro de Spotlight – Segredos Revelados, eleito melhor filme de 2015 pela Academia e cuja trama também foca uma investigação jornalística (casos de abusos sexuais cometidos por padres revelados pelo Boston Globe).

Coube a Singer expandir o roteiro de Liz Hannah. “Nós dois lemos os livros de Katharine e Bradlee e ficamos entusiasmamos com onde eles poderiam nos levar”, conta Spielberg. “Josh então partiu para a  pesquisa e acho que o fato de ter estudado Direito ajudou-o imensamente na busca pelos detalhes, assim como a experiência como roteirista da série The West Wing lhe trouxe conhecimento dos meandros do poder na Casa Branca.”

Para Singer, era fundamental traçar uma linha direta entre a decisão do The Washington Post de publicar os documentos secretos do Pentágono e a destemida investigação que, pouco depois, trouxe ao mundo o escândalo Watergate. “De certa forma, The Post é a origem da reportagem do Watergate”, explica o autor. “Sem aquele grupo de jornalistas nada disso teria acontecido, então o Pentagon Papers basicamente mudou a forma como o jornal agia internamente e possibilitou matérias daquela magnitude.”

Spielberg sempre foi atraído por momentos impactantes da História e transportou alguns deles para a telona em Império do Sol, A Lista de Schindler, Munique, Lincoln e Ponte de Espiões. Mas essa é a primeira vez que retrata a América dos anos 1970, justamente a década em que se tornou um expoente do cinema mundial. Para que a reconstituição mantivesse o padrão de meticulosidade do cineasta, ele reuniu um time de parças atrás das câmeras: o diretor de fotografia Janusz Kaminski, o editor Michael Kahn, o designer de produção Rick Carter e, a cereja do bolo, o compositor John Williams.

 

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