ENTREVISTAS ESTREIAS

De Repente Uma Família: Diretor se inspira na própria história

Após mais um dia caótico com as três crianças que decidiram adotar, Pete (Mark Wahlberg) e Ellie (Rose Byrne) têm uma conversa séria no quarto do casal. Não dá mais para aguentar a bagunça, os problemas e o barulho. O melhor é devolver os irmãos ao serviço social. Para a família e os amigos, eles dirão que a mãe biológica se recuperou e exigiu retomar a guarda dos filhos. Com isso, vão ter de volta o silêncio e a ordem, e ainda serão objeto de admiração pelo sacrifício que fizeram pelo bem das crianças.

É um dos momentos mais sérios da comédia De Repente Uma Família e saído diretamente da experiência real do diretor Sean Anders. “É muito difícil quando você passa subitamente de um casal sem filhos para uma família com três crianças que andam e falam”, admite Sanders em conversa por telefone com PREVIEW. “A gente fica tão cansado, assoberbado e apavorado, que de vez em quando eu e minha esposa tínhamos essa conversa, embora soubéssemos que era algo que jamais iríamos fazer.”

Diretor Sean Anders e Mark Wahlberg no set

De Repente Uma Família é uma comédia leve com momentos dramáticos, uma escolha consciente de Sanders diante do repertório de produções sobre adoção. “Temos grandes filmes sobre esse delicado tema, mas há um certo estereótipo de que a guarda temporária é uma situação negativa para todo mundo”, comenta. “Claro que cada história de adoção nasce com um nível de tragédia, mas também com muita alegria e felicidade pela formação de uma nova família, e quis fazer um filme que abordasse o assunto de forma bem acessível para o grande público.” O roteiro coescrito pelo diretor explora questões como reponsabilidade, relacionamento e, acima de tudo, comprometimento.

Pete e Ellie formam um casal comum. São donos da própria empresa de reformas – nada muito grande, já que os dois colocam a mão na massa – , e estão bem encaixados na classe média americana. Carro, casa, cachorro. No retrato, falta um filho, que deveria ter chegado há alguns anos. Para recuperar o tempo perdido, eles decidem adotar uma criança de 5 anos. Mas acabam com um trio de irmãos: a adolescente Lizzy (Isabela Moner, de Transformers: O Último Cavaleiro) e os menores  Juan (Gustavo Quiroz, de A Justiceira) e Lita (Julianna Gamiz, de Jane, The Virgin). Essa escolha tem a ver com a grave falta de interesse de pais em potencial pela faixa etária acima dos 13 anos, ainda maior que a pouca procura por crianças acima de 2 anos.

“Era importante para mim incluir uma adolescente”, explica Sanders sobre sua decisão pela personagem, que não replica sua experiência pessoal. “Muita gente tem medo de adotar crianças mais velhas e queríamos contar essa história. Embora não seja a minha história, me encontrei com muitas famílias que adotaram adolescentes, e uma dessas garotas inclusive se tornou a nossa consultora para a personagem Lizzy. Ela ficou conosco o tempo todo e nos guiou pelas emoções que Lizzy experimentava”, completa o diretor.

Acostumada a ser o adulto da casa diante da falta da mãe, Lizzy é a principal fonte de conflito com Pete e Ellie, que têm de enfrentar também a reação da família, que vai do falso entusiasmo ao medo de que o casal esteja trazendo uma quadrilha do crime organizado para dentro de casa. “As pessoas geralmente são um pouco mais diplomáticas do que no filme”, alerta Sanders em tom divertido.

Os melhores momentos, no entanto, estão com a dupla de assistentes sociais formada por Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo) e Tig Notaro (da série Transparent). Típica dupla água e óleo, afinadas e eficientes, elas tomam conta da tela sempre que aparecem, deixando Wahlberg e Rose para trás em seus postos de pais confusos.

Sanders garante que elas também foram inspiradas por personagens reais de sua trajetória como pai adotivo, assim como a variedade de participantes no grupo de apoio que a princípio parece feita para atender as exigências da diversidade. No fim, é uma visão positiva da adoção, apesar dos obstáculos e problemas que surgem no processo. “Minha experiência com adoção foi engraçada, algumas vezes dolorosamente engraçada”, resume Sanders, cuja visão compassiva dá o tom a esse longa que faz o público sair feliz do cinema.

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