ENTREVISTAS ESTREIAS

Diretor fala sobre Em Busca de Fellini, seu filme cartão-postal

Lucy (Ksenia Solo) tem a doçura de Amélie Poulain e a verve aventureira de Alice no País das Maravilhas. Mas é em busca de Fellini que ela entra na toca do coelho, ops, na Itália. Inspirado na vida da roteirista Nancy Cartwright, esse filme cartão-postal tem Verona, Veneza e Roma como  pontos de parada de Lucy, moça de Ohio, superprotegida pela mãe (Maria Bello), que em 1993 decide procurar seu ídolo, o cineasta Federico Fellini.

O pacote turístico inclui romance, sedução e os tipos excêntricos do criador de clássicos como A Doce Vida Amarcord. Já Lucy é um espelho da ingênua Gelsomina, interpretada por Giulietta Masina em A Estrada da Vida. Antes de embarcar na viagem, confira o papo que tivemos com o diretor estreante Taron Lexton.

Taron Lexton

O que pode contar sobre você antes dessa estreia em longa-metragem?

TARON LEXTON – Eu faço filmes desde pequeno, sério. É interessante que tenha mencionado Amélie Poulain, porque é um de meus filmes preferidos e fico feliz que tenha notado o paralelo. Eu sou um amante do cinema. Cresci nos anos 90 e era aficionado por filmes como Forrest Gump e Beleza Americana.

Curioso que esses dois filmes também mesclam realidade e fantasia.

É engraçado, porque essa dualidade também era marca do cinema de Fellini. Colocar seus sonhos na tela sempre foi sua força motriz, ele se guiava pelas teorias de exploração dos sonhos de Carl Jung. Então além de poder trabalhar com temas que são significantes para mim, pude fazer um filme sobre o universo felliniano. E isso me levou ao roteiro de Nancy Cartwright, que também é dona de uma mente imaginativa e tem em sua essência essa mescla de realidade e fantasia. Há certas pessoas que não aceitam o mundo como é, querem torná-lo um pouco melhor, como talvez ele seja em suas mentes fantasiosas. Tanto Felllini quanto Nancy têm essa marca.  Assim é Lucy também no filme.

É verdade que o enredo é autobiográfico?

Nancy diz que é 70% verdade. Mas o que tentamos fazer é fundir esses dois mundos. Nancy realmente foi à Itália à procura de Fellini, quando tinha seus 20 anos, passou por essas cidades e conheceu aquela gente. Mas há também o mundo de Fellini, porque é duro dizer o que é real e o que é fantasia em seus filmes. Buscamos captar esse espírito. Nem sempre dá para saber se o que vemos está na mente de Lucy ou acontece pra valer. Fora que a Itália é por si só uma terra de beleza mágica e de história milenar.

Concorda que é um filme sobre perdas e que, assim como Alice, Lucy precisa entrar em outro mundo para descobrir a si mesma?

Com certeza! Foi ótimo mencionar isso, pois há muitas referências a Lewis Carroll. Lucy está em busca de significado e, no fim, descobre que ele não existe, que o significado da vida é aquilo que a gente traz para ela. Há toda essa expectativa infantil de que haja uma grande revelação, mas parte do crescer é descobrir que o mundo é complicado, que ele pede mais de você do que lhe entrega. Lucy está perdendo não só sua mãe, que está doente, mas a inocência, a ilusão que tinha sobre o mundo lá fora. Ela tem um choque de realidade.

Os lugares pelos quais ela passa são típicos cartões-postais.

A intenção era justamente fazer o espectador sentir como se estivesse viajando. Até porque Lucy se comunica com a mãe por cartão-postal. Essencialmente, mostramos essa versão romantizada da Itália, para em seguida revelar seus pontos obscuros. Se a mãe de Lucy a superprotegeu toda a vida, Lucy faz o mesmo ao omitir as descobertas desagradáveis que faz nessa jornada.

A trama se passa em 1993, por um motivo bem peculiar que se revela no final, mas faz a gente lembrar como o mundo era diferente há 25 anos. 

Os anos 90 foram marcados pelo idealismo, o clima era otimista, romântico. Isso pode soar estranho hoje, mas foi uma época muito bonita e não vejo o otimismo como um problema, mas como uma qualidade. E foi assim no cinema também, só que na década de 2000 o clima mudou e inspirou uma série de filmes sobre mundos distópicos e apocalípticos. Retratar o pessimismo tem seu valor, claro, mas acho que aos poucos estamos retomando o otimismo. Espero que Em Busca de Fellini seja um pequeno passo nesse sentido.

 

 

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