ENTREVISTAS ESTREIAS

Diretor Marcelo Gomes apresenta Joaquim, o homem por trás do mito Tiradentes

A imagem da cabeça decepada de Tiradentes abre o novo filme do pernambucano Marcelo Gomes, Joaquim. O personagem é o narrador e lembra que foi o único executado entre os inconfidentes condenados pela frustrada revolta contra o colonialismo português, no século 18. Joaquim estreia nesta quinta, justamente na semana em que se completa 225 anos de sua morte, lembrada no feriado nacional de 21 de abril. O que se vê na tela, porém, é o homem Joaquim José da Silva Xavier e não o mártir da Inconfidência Mineira. “Fui convidado por uma produtora espanhola para participar do projeto Libertadores, uma série de longas sobre os protagonistas das revoltas libertárias nas Américas”, explica Marcelo Gomes em entrevista à PREVIEW. “Adoro filmes históricos, tanto que meu primeiro longa, Cinema, Aspirinas e Urubus, é de época.”

Gomes leu biografias, estudou diferentes pontos de vista de historiadores e consultou os Autos da Devassa, que reúne o processo judicial movido pela coroa portuguesa contra os inconfidentes. “Há inúmeras teorias, porque essa história ficou esquecida por muito tempo”, ensina. “Tiradentes só foi resgatado enquanto herói pela República, porque para o Império não era interessante valorizar um personagem enforcado por ordem da rainha Dona Maria I de Portugal.”

O que mais o tocou, contudo, foram os livros sobre o cotidiano na colônia, em especial História da Vida Privada no Brasil, de Laura de Mello e Souza. “Fiquei encantado em saber como as pessoas viajavam, o que vestiam, como era o dia a dia, e meu cinema é muito crônica, tem forte relação com o documental”, afirma o diretor Era Uma Vez Eu, Verônica. “Brinco que quando uma pessoa está em crise, ela vai ao psicanalista e ele pergunta sobre o pai e a mãe, então para entender as crises e fraturas sociais do nosso país temos de voltar ao Brasil colonial.”

BABEL DE LÍNGUAS

Filho de portugueses (ele e a mãe nasceram no Brasil), Joaquim morou com o tio após a morte prematura dos pais. Foi com ele que aprendeu a ser dentista, atividade que lhe deu a alcunha de Tiradentes. Interpretado por Julio Machado, o personagem surge adulto, no posto de alferes da coroa portuguesa, quando realizava viagens pelas precárias, lamacentas e perigosas estradas de Minas Gerais a procura de contrabandistas de ouro. “Queria entender como esse soldado real se tornou um rebelde, em que ponto mudou de paradigma dentro de uma sociedade corrupta, cruel e desumana como a do Brasil colonial”, diz Gomes. “Essa história não está nos livros e daí nasceu minha trama ficcional, pois faço filmes para investigar o que desconheço.”

Rodado na Chapada da Diamantina, Joaquim foi realizado em esquema de guerrilha, com orçamento enxuto e quatro semanas de filmagens. A ideia era mostrar um Brasil quase instransponível. “As locações pediam a dramaturgia da dificuldade, o que encontramos naquela geografia, uma região de mineração com pedras e cachoeiras, onde sentimos o espírito dos exploradores.” Segundo o cineasta, a descoberta do ouro provocou uma mudança radical no processo de colonização. “Os portugueses viviam feito caranguejo na costa brasileira. Chegavam por Salvador, Rio de Janeiro e Recife, vinham sem família, exploravam e iam embora, até que descobriram o ouro”, relata. “Calcula-se que mais de 200 mil pessoas foram para Minas, entre portugueses, espanhóis e outros europeus, e trouxeram mais africanos para escravizar junto com os índios.”

O cineasta pontua que além de virar um caldo cultural iniciado com a mistura de toda essa gente, Minas Gerais se tornou uma Babel de línguas. “Falavam crioulo, tupi, guarani, português, português abrasileirado, espanhol…” O crioulo é um dialeto da Guiné-Bissau e alguns atores do elenco falam realmente a língua. Gomes não traduziu com legendas porque queria que o público sentisse o mesmo desconforto de Joaquim, já que o filme tem o ponto de vista dele. “A língua era o elemento de resistência dos africanos, o código secreto entre eles. Tinha de trazer isso para o filme e tive a inspiração para fazer uma cena que vários críticos chamam de o hip hop do século 18.”

BERLIM

Julio Machado e Marcelo Gomes

Embora os documentos oficiais sejam escassos, Gomes acredita que a gênese do herói Tiradentes esteja na frustração profissional. Ele explica que nos Autos da Devassa consta que o alferes expressava seu desejo de ser tenente, mas foi sempre preterido. “Isso é fruto de uma questão que permanece atual, que é o nepotismo. Minha teoria é que ele se revoltou quando tomou consciência da abrangência da opressão da coroa.”

Selecionado para a competição principal do último Festival de Berlim, Joaquim não levou o Urso de Ouro, mas teve uma recepção calorosa. “Senti que há uma curiosidade do europeu em relação à colonização, e acho que isso os ajudaria a entender as mazelas do mundo contemporâneo.” Gomes revela que houve quem reclamasse que o filme não mostra a Inconfidência. “Outros filmes narraram essa parte e termino o meu onde eles começam, por isso se chama Joaquim e não Tiradentes”, diz. “Quero instigar o público a construir esse segundo momento, espero que ele leia, investigue e reflita sobre o quanto o Brasil de hoje está ligado ao Brasil do passado”, conclui.

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