ENTREVISTAS ESTREIAS

Divórcio: Murilo Benício fez até dublagem do sotaque caipira

Há uma cena clássica na dramaturgia brasileira, que inclusive pode ser revista no YouTube, em que Fernanda Montenegro e Paulo Autran fazem uma guerra de alimentos durante uma briga no café da manhã. A dupla vivia Charlô e Otávio em Guerra dos Sexos, novela de Silvio de Abreu que fez enorme sucesso em 1983 e ganhou um remake em 2012. Na telona, o humor pastelão deu o tom de A Guerra dos Roses, filme dirigido por Danny DeVito em 1989, que contava a história de amor e ódio do casal formado por Kathleen Turner e Michael Douglas. Pratos, lustres, móveis e candelabros voaram pelos ares na batalha para ver quem ficava com a mansão após a separação.

“Esse lado primal do ser humano é muito presente quando a gente se apaixona e quando se separa, e o divórcio litigioso pode acirrar esse estado primitivo”, diz o cineasta Pedro Amorim sobre os protagonistas de Divórcio. “Os personagens vão virando bichos”, conta. O casal em questão é Júlio e Noeli, interpretados por Murilo Benício e Camila Morgado. Amorim ressalta que Guerra dos Sexos e A Guerra dos Roses foram importantes referências, mas não só. “Os westerns de mestres como John Ford e Sergio Leone também foram inspiração.”

No cenário desse misto de comédia romântica com western, por sinal, não falta poeira. Noeli é filha de fazendeiros de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, região de clima quente, terra roxa e extensas plantações de cana. A trama abre no fim dos anos 90, quando a jovem está prestes a se casar com um homem que não ama. Júlio a resgata na hora do sim e ela abre mão da herança para viver seu amor. A vida humilde termina quando o casal cria o molho de tomate Juno. “O Júlio é um cara de bom coração que se tornou milionário da noite para o dia e começou a usar o dinheiro meio sem noção”, comenta Murilo Benício. “Com o passar dos anos, eles se esquecem da essência do que eram no início e Júlio cuida mais do carro do que da mulher.” Um incidente na estrada vai ser a gota d’água para a separação e, claro, o processo de divórcio deflagra mil e uma confusões.

O diretor tinha o desejo de sair do eixo Rio-São Paulo-Pernambuco e mostrar um Brasil pouco explorado no cinema. “O filme foi pensado como um western moderno e tinha de aproveitar a amplitude de Ribeirão, não queríamos fazer quadradinho e o cenário plano permite abrir as laterais”, afirma. “Ali a cultura sertaneja é forte, mas há também uma cultura rock and roll, então quebramos certos estereótipos da região.” Segundo Amorim, Divórcio tem um leve tom farsesco, mas é calcado na realidade. “Júlio representa bem o macho alfa, figura típica do interior, principalmente nessa época. Já a Noeli é filha de fazendeiro e tem uma coisa meio masculina, como a intimidade com armas”, explica.

É raro ver Benício em comédias e ele afirma que entrou no projeto para não correr o risco de se levar a sério demais. “Achei o humor de Mato Sem Cachorro (estreia de Pedro Amorim) de bom gosto e o roteiro de Divórcio escrito por Paulo Cursino (Até que a Sorte nos Separe) era muito engraçado”, conta Benício. “Tive vários encontros com o Cursino e ele foi muito aberto às maluquices que a gente inventava.” Amorim diz ter ficado surpreso com o ator. “A Camila tem experiência no gênero e o Murilo revelou um dom, ele possui o relógio da comédia, é isento de vaidade e não tem medo do ridículo”, diz. Benício completa: “Eu tenho um lado forte de comédia, só que as pessoas fazem demais e poucos entendem a dificuldade. Aí vem aquela enxurrada de comédias mais ou menos e isso faz com que seja visto como um gênero menor em termos de atuação, o que é um absurdo, porque é a coisa mais difícil que um ator pode fazer.”

Murilo Benício e Camila Morgado ensaiaram bastante e foram a Ribeirão Preto treinar o sotaque caipira. “Foi tão difícil fazer que até dublei algumas coisas”, revela Benício. “Tinha muita gente de Ribeirão na equipe e quando começamos a filmar, eu praticava muito os rs, e a gente se esqueceu que o s era muito mais complicado.” Ele conta que ao ver o material filmado, notou que sua fala no início estava diferente do final. “O sotaque estava muito duro nas primeiras cenas e pedi para dublar, embora tenha dificuldade com a técnica”, lembra. “Mas é um recurso espetacular para o ator, que pode melhorar sua interpretação.”

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