ENTREVISTAS ESTREIAS

“Fingimos que filmar 11 páginas de conversa era corriqueiro”, diz James Schamus sobre Indignação

O nome de James Schamus pode ser desconhecido do grande público, mas o cinéfilo sabe que ele é o produtor indicado ao Oscar por O Segrego de Brokeback Mountain e O Tigre e o Dragão, de Ang Lee. A longa parceria com o cineasta taiwanês rendeu diversos frutos, como Comer Beber Viver, Hulk e Tempestade de Gelo – ora como produtor, ora como roteirista, ou como ambos. Prestes a completar 25 anos de carreira, Schamus estreia como diretor em Indignação, adaptação do romance de Philip Roth que ele próprio roteirizou, e que tem coprodução do brasileiro Rodrigo Teixeira.

O longa estreou no Festival de Sundance deste ano e foi um dos destaques do Festival do Rio, onde Schamus marcou presença pessoalmente na sessão de gala. Na trama ambientada em 1951, Logan Lerman (Percy Jackson e o Ladrão de Raios) é Marcus Messner, judeu de Nova Jersey que escapa da convocação para a Guerra da Coreia ao ganhar uma bolsa de estudos em uma conservadora universidade de Ohio. Aluno brilhante, focado, porém genioso e antissocial, ele se encanta por Olivia Hutton (Sarah Gadon, de A Nova Vida de Louis Drax), com quem tem um primeiro encontro com desfecho inesperado.

A narrativa acompanha Marcus enquanto ele se defronta com realidades que o desviam de seu bem traçado plano de vida, o que inclui discussões acaloradas com o diretor da universidade, Dean Caudwell (Tracy Letts, de A Grande Aposta). São diálogos longos, complexos e fascinantes, que colocam o filme em outro patamar. “Se por um lado foi simples adaptá-los porque foram escritos com perfeição por Philip Roth, por outro foi aterrorizante porque era necessário editar e cortar para encaixar no roteiro”, explica James Schamus em conversa com PREVIEW. “Acima de tudo, foi preciso acreditar que o público está pronto para uma experiência narrativa desse tipo, porque os diálogos são fora do padrão do cinema atual, fingimos que filmar 11 páginas de conversa era algo corriqueiro”, diz.

James Schamus

James Schamus

Shamus conta que adora os livros de Roth, mas que não os considera necessariamente fonte ideal de material para o cinema. “A primeira coisa que me chamou a atenção ao terminar de ler Indignação é que não conseguia parar de pensar nos personagens, em quem eram e o que aconteceu com eles depois”, afirma. “Até mesmo os supostos vilões me intrigaram, como o diretor da escola, pois eram genuínos naquela sociedade, naquele tempo, e isso foi o suficiente para eu dar o pontapé inicial na adaptação.”

Para os jovens protagonistas Logan Lerman e Sarah Gadon foi um desafio compreender o quão diferente era a relação que teriam nos anos 50 e o quanto Marcus e Olivia saíram do modelo aceitável. Para Schamus, se um jovem de 18 anos hoje tiver um primeiro encontro como o de Marcus, é provável que ache normal, que a reação não seja de perplexidade como a do personagem. Ele pondera, contudo, que mulheres continuam a ser julgadas e desrespeitadas por certas atitudes. “O moralismo pode parecer ultrapassado, mas é muito contemporâneo”, diz. “Marcus se apaixona, mas não consegue enxergar a tragédia que está por trás dos atos de Olivia.”

Schamus admite que foi tomado pela ansiedade no processo de adaptação. “Fiz algo muito estúpido, que foi mandar o roteiro para Philip Roth e se ele não gostasse estava decidido a parar tudo”, revela. “Sabe o que ele fez? Devolveu o texto e se recusou a ler, o que foi libertador, uma maneira de dizer ‘faça o seu filme’, e Roth gostou muito quando o viu pronto.” Publicada em 2008, Indignação é uma das obras mais recentes do autor, que em 2012 afirmou à revista francesa Les inRocks que não pretendia mais escrever.

“No livro, Roth está olhando para trás, para sua juventude, onde encontra as memórias dessa moça que provavelmente nunca entendeu. Acho que o romance é como uma carta para ela, é o reconhecimento da própria ignorância em relação ao que aquela jovem deve ter passado na vida”, comenta Schamus. “Ao voltar no tempo, é possível confrontar a estúpida ideia de que estamos progredindo, de que sexismo, racismo e xenofobia são coisas do passado. É claro que há melhorias, mas a grotesca campanha presidencial americana é prova de que não podemos fingir que estamos muito melhor do que nos anos 1950. O que Roth faz ao situar a trama naquela década é nutrir esse sentimento de indignação e estendê-lo ao presente”, conclui.

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