ENTREVISTAS ESTREIAS

A Gabeça de Gumercindo Saraiva: Faroeste gaúcho

Em 1895, no final da Revolução Federalista, o corpo do maragato Gumercindo Saraiva, líder dos rebeldes, foi profanado e decapitado. A cabeça foi levada como um troféu até o governador do Rio Grande do Sul, Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. Aconteceu de verdade. O que permanece um mistério até hoje é o paradeiro da cabeça. É essa resposta que o escritor e cineasta Tabajara Ruas transforma em ficção no western A Cabeça de Gumercindo Saraiva. 

Nascido em Uruguaiana há 76 anos, Ruas cresceu ouvindo histórias sobre as guerras que ocorreram na região no fim do século 19. Algumas terminaram nas páginas de seus romances históricos, como a Revolução Farroupilha e a Guerra do Paraguai em Netto Perde Sua Alma, a Guerra dos Farrapos reconstituída em Os Varões Assinalados e a Revolução Federalista narrada em Gumercindo. É este último, lançado em 2015, que Ruas transporta para a tela grande nessa requintada produção de época.

Na trama, o capitão Francisco Saraiva, filho de Gumercindo, comanda um piquete de cinco cavaleiros, determinado a recuperar a cabeça do pai para evitar que ele se torne uma alma penada – essa é a crença local. Eles saem no rastro do major paulista Ramiro de Oliveira, o emissário que ruma à capital escoltado por dois ajudantes. De um lado, a honra e o misticismo, do outro, o exibicionismo e a vingança. E no meio um ódio tão exacerbado quanto insensato.

Os olhos de Francisco soltam fogo na interpretação de Leonardo Machado, enquanto Ramiro, vivido por Murilo Rosa, não esconde a incredulidade em relação à bizarra  missão. Infelizmente, é preciso abrir um parêntesis especial ao falar do elenco, que ainda conta com Marcos Pitombo e Allan Souza Lima, além de parceiros recorrentes de Ruas, Marcos Breda, Marcos Verza e Sirmar Antunes. Em meados de setembro, quando PREVIEW conversou com o cineasta por telefone, ele se mostrou orgulhoso de sua dupla de protagonistas. “Murilo foi uma maravilhosa descoberta, ele se entrega e se enturmou muito rápido”, diz. “Chegou em um dia e no outro estava tomando chimarrão.”

Já Leonardo Machado era seu amigo desde a primeira colaboração, em Os Senhores da Guerra (2012). “Léo é um ator maduro, sabe caminhar, sabe falar, sabe olhar, ele tem capacidade de introspecção e puxa lá de dentro a energia que o personagem necessita”, elogia. Poucos dias depois, em 28 de setembro, o ator gaúcho de 42 anos morreu após uma batalha de dois anos contra um câncer de fígado. Apresentador do Festival de Gramado por mais de uma década e vencedor do Kikito pela atuação no drama Em Teu Nome (2009), Léo Machado deixou ainda outro longa inédito, Legalidade, que estreia ano que vem e no qual interpreta o político Leonel Brizola.

Em vez das vastas pradarias que marcam a paisagem do Velho Oeste em clássicos do gênero no cinema americano, a natureza nesse faroeste gaúcho é sui generis. A fotografia é assinada por Alexandre Berra, que começa com sua câmera fechada em uma araucária, árvore típica da região Sul, para então percorrer florestas, cânions e cachoeiras em panorâmicas de encher os olhos. “Isso tudo é fruto de pesquisa profunda, desde os figurinos, armas, estilo de montar, até fauna e flora”, afirma Ruas. “Hoje o Rio Grande é atravessado por bosques de eucaliptos, mas eles não aparecem no filme porque não existiam naquela época.” .

Além do resgate da cabeça, a narrativa é movimentada por um mistério. Francisco está intrigado com as circunstâncias da morte do pai, atingido por um tiro de tocaia. “O assassino nunca foi identificado e no filme damos a nossa versão do crime”, avisa Ruas. Embora Francisco e Ramiro sejam antagonistas, nesse jogo de gato e rato não há vilões nem heróis, apenas grupos inimigos.

“Quero que o espectador não saia pensando em quem ganhou ou perdeu, mas na inutilidade daquilo tudo”, reflete. “Uma das palavras que mais se ouve hoje em nosso contexto é ódio e espero que o filme seja entendido como metáfora de como o ódio pode deflagrar uma onda de crueldade.”

 

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