ENTREVISTAS FESTIVAIS

Gramado: Simonal resgata o cantor sob o prisma do racismo e das fake news

“Que artista negro chegou aonde Wilson Simonal chegou, só o artista da bola, Pelé, ninguém mais”, questiona Fabrício Boliveira em tom de revolta, na entrevista coletiva de Simonal, outro bom longa nacional na disputa pelo Kikito. “Independe em que lado da política ele estava, se esquerda ou direita, porque quem é negão neste País tem de lidar com isso a vida inteira. Eles não aceitavam que fosse famoso e tivesse mansão e três Mercedes na gararem, pois mesmo hoje eu sou parado pela polícia por andar com carro importado”, completa o ator, protagonista da cinebiografia dirigida por Leonardo Domingues.

Para situar a história: nos anos 60 e 70, Wilson Simonal saiu da pobreza para se tornar um fenômeno da música popular brasileira com seu vozeirão afinado e swing de malandro. Introduzido por Carlos Imperial  e depois apadrinhado por Miele e Ronaldo Bôscoli, Simonal teve uma ascenção meteórica, com direito a programas de TV e um contrato publicitário com a Shell que foi o considerado o maior na história de um artista brasileiro na época. O que significava luxo, mansão, carrões. E ainda havia Tereza, a esposa burguesa, branca e loira, com quem teve três filhos.

O encanto acabou nos anos 70, por sua ligação com os militares, a condenação pelo sequestro do contador (que foi torturado no Dops) e as denúncias de delação de Gil e Caetano. Ganhou a alcunha de Dedo Duro na mídia, foi difamado, execrado, teve a carreira destruída e viveu no ostracismo até o fim da vida – morreu em 2000, os 62 anos. É uma história trágica e tudo isso está no filme. Simonal não é poupado, mas seus atos são colocados à luz da história, sob o prisma do racismo e das fake news.

E tem a música, claro, com a trilha produzida e selecionada pelos filhos do cantor, Wilson Simoninha e Max de Castro. Sucessos como “Meu Limão, Meu Limoeiro”, “Nem Vem Que Não Tem”, “Mamãe Passou Açúcar em mim”e “Sá Marina” aparecem na voz do próprio Simonal – Boliveira nem pensou em se arriscar no vocal. O público vai sair cantando do cinema, pode apostar.

Boliveira e Isis na coletiva/foto de Fabio Winter

Isis de Oliveira está na pele de Tereza e retoma a parceria com Boliveira, sua dupla em Faroeste Caboclo. É também uma personagem sofrida. Aspirante à artista, Tereza era moderna, rejeitava a educação da família machista e queria uma carreira, só que acabou relegada ao papel de esposa de astro.

“Foi barra pesada fazer a personagem, ainda mais hoje, porque embora ainda haja machismo e muitas correntes, estamos voando cada vez mais alto”, comenta Isis. “Para mim foi uma maçã entalada na garganta fazer a Teresa algumas vezes, tive até enxaqueca, mas entendi que por trás daquela pessoa reprimida e anulada havia uma mulher forte que ficou ao lado do marido porque havia ali um amor descomunal”, afirma.

A estreia de Simonal nos cinemas brasileiros está prevista para o primeiro semestre de 2019.

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