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Hafis & Mara abre Mostra de Cinema Suíço falando sobre arte, amor e comprometimento

Uma história de amor. Esta é a melhor definição para Hafis & Mara, filme de abertura do 7º Panorama do Cinema Suíço Contemporâneo em São Paulo. Amor do tipo compreendido apenas por seus envolvidos e que parece absurdo para quem o observa de fora.

Melancólico e gentil, o documentário é dirigido pelo cineasta Mano Khalil, ele próprio dono de uma história digna de ser contada. Curdo nascido na Síria, Khalil formou-se em direito em Damasco e estudou cinema na antiga Tchecoslováquia, onde atuou como diretor de TV após a pacífica divisão do país pela Revolução de Veludo.

Dali, Khalil fixou-se na Suíça, país mais multicultural do que sua imagem na mente da grande maioria, onde convivem quatro idiomas oficiais (alemão, italiano, francês e reto-romano) e muitos dialetos, cenário em tudo diverso da terra natal do diretor, onde os curdos são proibidos de usar seu próprio idioma e obrigados a falar árabe. Essa exposição a modos diversos de tratar a convivência de pessoas diferentes pode estar na delicadeza com que Khalil conta a história que lhe foi entregue do modo mais casual.

“Um amigo me enviou um e-mail falando sobre essa pessoa, ninguém o conhece fora da Suíça, um grande artista que estava esquecido”, explica o diretor falando com exclusividade para a Preview durante sua passagem por são Paulo. “Ele está sempre viajando pelo mundo, ninguém o promove e ele trabalha todos os dias.”

Casados há décadas, Hafis Bertschinger e sua esposa Mara poderiam também vir de povos ou até planetas diversos. O documentário os encontra já passados dos 80 anos, vivendo na Suíça. Ele ativo e altivo, móvel, criativo, em constante ebulição. Ela já contida em sua mobilidade pela saúde frágil, suave, constante. Dono de uma vontade incessante de ir adiante, Hafis viaja com frequência, vai ao Líbano, Gana, a tantos outros lugares. Incapaz de usar o celular ou o computador, depende de Mara para toda a burocracia e qualquer contato na era digital.

É uma relação simbiótica e Mara a reconhece, relembrando o encontro de ambos na efervescente Paris, a mudança para a Suíça e como tudo passou a ser sobre ele e seus desejos. Um relacionamento desigual, que se equilibra subitamente quando os dois estão juntos, ele tão desejoso do julgamento dela para suas pinturas, ela que detém os meios de vida do casal, ela que torna possível que ele seja um artista. O documentário nos fazendo questionar porque ela não ficou em Paris como queria, porque não deixou para trás esse homem egoísta e seguiu com a própria vida. O sorriso dela numa foto antiga mostrando que a senhora no documentário é apenas uma fatia de sua história. Muito mais aconteceu antes de Khalil aparecer e colocar Hafis e Mara diante de nossos olhos com seu documentário muitas vezes lento para o nosso tempo ansioso, mas sempre focado em seus retratados.

“Para mim, o trabalho foi mostrar um homem louco, um sonhador, um homem muito triste, que está tentando criar a grande arte, mas que infelizmente não conseguiu fazer sucesso. Todos os sonhos de ser um grande artista, famoso e rico foram simplesmente perdidos. E o respeito por ela, que o amou e o apoiou por anos, que o sustentou como artista porque ela era a única que comprava suas obras. Eles tinham mais de vinte mil obras em casa, pinturas, esculturas. E ao apoiá-lo, ela de certa forma sofria com ele também”, resume Khalil, que para retratar teve de aceitar seus retratados em toda a sua complexidade. “Ele era um vulcão e ela o porto para aonde ele vinha. O trabalho foi falar sobre eles, sobre o respeito e a sensualidade, falar sobre a dificuldade de dizer adeus a quem parte. Não foi fácil fazer o filme”, completa o diretor.

Não é fácil também aceitar Rafis & Mara. É preciso, como Khalil fez, conhecer e aceitar.

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