ENTREVISTAS ESTREIAS

Intimidade Entre Estranhos: Encontro de gerações

O diretor José Alvarenga Jr. pode se considerar um privilegiado. Lançar dois longas-metragens no mesmo ano é raridade. Em setembro estreou 10 Segundos Para Vencer, cinebiografia do boxeador Éder Jofre, e agora chega Intimidade Entre Estranhos. Na trama, Maria (Rafaela Mandelli) muda-se temporariamente de São Paulo para o Rio de Janeiro para estar perto do marido, Pedro (Milhem Cortaz), um ator de programa de pegadinhas que tenta a grande virada na carreira como protagonista de uma minissérie bíblica.

Com ele o dia todo fora, ela amarga a solidão, agravada pelo fato de estar na cidade que lhe deixou um trauma no passado. Para completar, Maria entra em confronto com Horácio (Gabriel Contente), o jovem síndico do prédio, rapaz estranho, calado, de vida sofrida. Aos poucos, porém, as divergências entre eles são substituídas por uma aproximação que traz um mundo completamente novo aos dois.

“Acho uma benção ter dois filmes exibidos no mesmo ano e dois filmes tão diferentes entre si, com temáticas, abordagens e desejos distintos”, diz Alvarenga Jr. à PREVIEW. “Intimidade Entre Estranhos está sendo pensado há mais de dez anos, de uma maneira muito autoral, entre amigos.” Ele revela que tudo começou quando assistiu ao premiado filme irlandês Apenas Uma Vez (Once), sobre um músico de rua que conhece uma aspirante à compositora e juntos compõe músicas que refletem a relação entre eles.

A produção independente e de baixo orçamento foi rodada em 17 dias em esquema de guerrilha. “Fiquei impressionado pela maneira como eles realizaram e falei sobre isso com o Leoni (da banda Barão Vermelho)”, conta. Leoni lhe apresentou uma música que tinha acabado de fazer com Frejat, chamada “Intimidade Entre Estranhos”. “A canção era muito cinematográfica e eu já tinha fragmentos da história, porque uma parte desse triângulo eu vivi quando era muito jovem, então escrevi uma grande sinopse.”

O texto ficou guardado por oito anos, até que a produtora Iafa Britz avisou que tinha um dinheiro pequeno, para um filme de no máximo R$ 3 milhões. Para seu parceiro na elaboração do roteiro, o diretor contou com Matheus Souza. Diretor e roteirista de Apenas o Fim, Tamo Junto e Ana e Vitória, Souza caiu no gosto do público jovem por suas comédias românticas verborrágicas e cheias de referências à cultura pop, fortemente inspiradas no cinema de Woody Allen.

“Matheus é uma figura que adoro e respeito. Queria que falasse um pouco desse menino, o Horácio, e a partir daí a gente se acertou”, afirma Alvarenga Jr.. “O compromisso foi que cada um seria o mais verdadeiro na sua colocação e faria quase que um empréstimo de vida para o filme, porque ambos vivemos situações que estão na trama.”

Quase três décadas separam Alvarenga Jr., 58 anos, de Matheus, 30 anos. “Como o filme trata de um conflito de gerações, nosso embate criativo foi fundamental para defender com propriedade todos os personagens. E uma produtora de personalidade como a Iafa Britz completou nosso time de pais desse filme”, diz Matheus Souza à PREVIEW. “Acho que a combinação de estilos e personalidade desse trio deu um tom bem particular para o longa.” Alvarenga Jr. aproveita e explica que o triângulo amoroso que se estabelece entre Maria, Horácio e Pedro fala de “desejos que não se acertam, que têm data de validade, mas que terão consequências”. Para o cineasta, o enredo tem um aspecto de frustração. “Mas toda frustração alimenta uma possibilidade de futuro, essa é a ideia, falar dessas pequenas possibilidades que a vida nos traz toda hora”, comenta.

Matheus Souza tentou ir além do conflito de gerações. “São três pessoas muito ferradas da cabeça. Até o final é difícil o espectador presumir quem vai ficar junto e até mesmo se alguém ali deveria ficar junto de alguma forma”, opina. “Escrevi em um período de depressão e os roteiros são sempre minhas válvulas de escape. São três personagens repletos de falhas, todos tomam atitudes equivocadas em algum momento e justamente por serem imperfeitos, acabam sendo boas companhias um para o outro e até mesmo fazer piada sobre a tristeza que os envolve.”

É curioso que a dupla de roteiristas fez fama no cinema com comédias. Souza conta que tem procurado diminuir as citações pop nos diálogos. “Tenho me divertido mais escrevendo para outros gêneros, exercitando outros lados. Recentemente escrevi um musical, um terror, um épico de ação…Talvez esse filme tenha inaugurado um novo momento dos meus roteiros. Também verborrágico, mas ao mesmo tempo apreciando silêncios”, afirma. Depois de fazer rir com Os Normais: O Filme, Divã e Cilada.com, Alvarenga Jr. envereda duplamente para o drama na telona. Mas vale lembrar que o gênero tem sido seu forte na TV, em séries dramáticas da Globo como A Justiceira, Força Tarefa, O Caçador e Supermáquina. “Realmente faltava o drama no cinema, mas mesmos as minhas comédias tinham um tom mais ácido, contestatório”, observa. “Elas tinham de alguma maneira uma relevância cultural, falavam de coisas que precisavam ser ditas, eram provocativas, independente do público a que se dirigiam.”

As filmagens foram realizadas quase em sua totalidade em um prédio de apartamentos no Rio de Janeiro. “Além do privilégio por ter um grande cineasta como o Alvarenga filmando um roteiro meu, acompanhei as gravações como se fosse um curso de direção”, lembra Souza. O cenário e a direção de arte ressaltam os espaços restritos e apontam para um sufocamento e um isolamento físico que espelham o íntimo dos protagonistas. Ao mesmo tempo, eles estão em busca do contato com o outro. “Apesar de haver uma certa normalidade, todos estão sob imensa pressão, daí o efeito claustrofóbico de ficar dentro de um prédio”, comenta Alvarenga Jr.. “A figura do prédio é muito importante, assim como a piscina, que funciona como uma espécie de paisagem, quase um quadro lúdico na parede, uma possibilidade de escape. Não à toa, o Horácio sempre olha para a piscina e através de como ela está, se parada, com a Maria ou vazia, ele também sente e percebe o estado emocional daquela história e daquela relação.”

Para Alvarenga Jr., o filme é um longa com espírito de curta. “Equipe pequena, apaixonada, em uma locação só, então precisava de um elenco com essa disposição também”, explica. Rafaela Mandelli e a Gabriel Contente fizeram testes. Milhem Cortaz veio a convite. “Queria deslocá-lo dos papéis de caras rigorosos e fortes, ligados ao submundo ou a uma polícia corrupta, que o marcaram no cinema”, diz o diretor. “Achei que seria interessante levá-lo para esse lado romântico em que você visse por trás da robustez, algo que aparece nos pequenos gestos, nas falas murmuradas e o Milhem topou essa virada.” Segundo o cineasta, a  cobrança não era exatamente em cima do personagem, mas em cima de uma atmosfera e no desdobramento que aquela atmosfera tinha na alma das pessoas. “Como disse antes, criamos um roteiro em cima de vidas vividas, queria que eles estivessem prontos, quase em carne viva, para poder expor nossas histórias com a verdade que elas precisavam”, conclui.

 

 

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