ENTREVISTAS ESTREIAS

José Padilha conta como foi recriar histórico sequestro em 7 Dias em Entebbe

José Padilha andou duplamente ocupado em um tour de lançamento da série da Netflix O Mecanismo e de seu novo projeto hollywoodiano, 7 Dias em Entebbe.  “Diferente de outros filmes meus sobre assuntos prementes com que todo mundo convive, como segurança pública e corrupção, esse é sobre um evento estranho aos brasileiros, porém marcante na história do Oriente Médio”, ele afirma na coletiva de imprensa, realizada em São Paulo no fim de março.

Em julho de 1976, um voo da Air France de Tel Aviv a Paris foi sequestrado e forçado a pousar em Entebbe, na Uganda. Os passageiros, grande parte judeus, foram mantidos reféns para ser negociada a liberação de presos palestinos em Israel. O grupo de terroristas era formado por membros da Frente Popular para a Libertação da Palestina e das Células Revolucionárias da Alemanha.

Sob pressão, o governo israelense organizou uma operação de resgate, conhecida como Thunderbolt. Naquele mesmo ano, duas produções para a TV americana recriaram o episódio, Vitória em Entebbe e Resgate Fantástico, seguidas pela versão cinematográfica israelense, Operação Thunderbolt.

Inspirado no livro do historiador inglês Saul David, Operation Thunderbolt: Flight 139 and the Raid on Entebbe Airport, o roteirista escocês Gregory Burke (71: Esquecido em Belfast) propôs outro ponto de vista. “Essa história tem sido contada sob a perspectiva da operação militar e Gregory foca tanto na relação entre os terroristas e os reféns quanto na interação entre o então primeiro-ministro Yitzhak Rabin e o ministro da Defesa Shimon Peres, nos bastidores da aprovação do resgate militar”, conta o diretor.

Depois de ler o livro de Saul David, Padilha foi a Israel fazer a própria pesquisa. Entrevistou militares que participaram da operação, encontrou com ex-reféns e falou com o ex-primeiro-ministro de Israel Ehud Barak, que na época era o comandante da tropa de elite.

“Quando você analisa a relação entre Rabin e Peres, vê que Rabin não acreditava que a operação pudesse dar certo. Para ele, mandar os militares para Entebbe era correr o risco de uma tragédia com muitas mortes. No entanto, negociar com os sequestradores palestinos e alemães também era impensável”, explica Padilha. “O Peres usava isso para pressionar e colocar Rabin em uma posição na qual não tinha como ganhar. Se não autorizasse a operação, perdia politicamente por ter negociado, e se o resgate falhasse, era o culpado também.”

No filme de 1977, Operação Thunderbolt, o lendário Klaus Kinski interpreta o terrorista alemão Wilfried Böse. Em 7 Dias em Entebbe, o papel é de Daniel Brühl (Rush: No Limite da Emoção). O ator alemão era a primeira escolha de Padilha, que confessa ter ficado preocupado quando lhe indicaram a inglesa Rosamund Pike para viver sua parceira, Brigitte. “Admirava Rosamund desde Garota Exemplar, mas quando perguntei se falava alemão, ela me disse que sabia pouco e que aprenderia foneticamente”, revela. “Teria apenas três meses, então fiquei meio cético. Quando mostrei o filme para dois amigos alemães, eles comentaram ‘Não sabíamos que ela nasceu em Frankfurt’, e isso prova o quanto é uma atriz maravilhosa.”

Padilha nunca teve nenhuma ligação pessoal com Israel, para onde foi pela primeira vez para pesquisar o filme. “Adorei Tel Aviv e as pessoas não se dão conta do quanto parece com o Rio de Janeiro”, opina. “Não sou religioso e embora minha mãe tenha descendência judaica, nunca interagi com esse lado da família. Sinto que há uma visão limitada do país, sempre inserida no contexto militar, enquanto existe uma cultura riquíssima e anciã que é pouco explorada.”

Foi a partir dessa tomada de consciência que o diretor decidiu entrecortar a narrativa do sequestro e do jogo político com cenas do ensaio de um espetáculo de dança moderna. Uma das bailarinas é namorada de um dos soldados destacados para a operação. “A dança é uma metáfora da incapacidade de palestinos e israelenses sentarem para negociar”, explica.

A apresentação é uma criação do aclamado coreógrafo israelense Ohad Naharin, retratado há pouco no documentário Gaga – O Amor Pela Dança. “Os bailarinos israelenses vestem roupa ortodoxa e na medida em que dançam, fazem movimentos que sugerem autoflagelação e começam a tirar peças da roupa. A única bailarina que não tira o traje fica caindo da cadeira. É uma forma de dizer que enquanto as pessoas pensarem de forma ortodoxa na questão Israel-Palestina, nunca vai haver solução.”

O diretor e os protagonistas, no Festival de Berlim

Além de chamar Naharin para a equipe, o cineasta escalou seus parceiros brasileiros na franquia Tropa de Elite, o diretor de fotografia Lula Carvalho e o montador Daniel Rezende (diretor de Bingo). “Como a filmagem seria apressada, trabalhar com quem já se está acostumado evita sustos e aumenta o rendimento”, justifica. Outro adendo nacional é o compositor da trilha Rodrigo Amarante, que concorreu ao Emmy pela música de abertura de Narcos, outra série da Netflix comandada por Padilha.

A crítica internacional tem torcido o nariz para 7 Dias em Entebbe, mas o cineasta acha compreensível, principalmente a mídia israelense, que ficou incomodada pela forma com que o filme examina a motivação dos terroristas. “Sabia que essa abordagem mais humana iria gerar polêmica. O uso da palavra terrorismo é polêmico por si só”, pondera. “Um americano pode chamar o Böse de terrorista, mas será que uma família do Iraque que perdeu alguém em um ataque de drone americano pode chamar o operador de terrorista? Não, mas por que não? Terroristas são péssimos, mas a palavra não pode ser um tabu, ignorar sua psicologia vai contra o conhecimento e a compreensão do ser humano.”

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