ENTREVISTAS ESTREIAS

Luciana Paes mostra as garras em O Animal Cordial

Luciana Paes esperava o chamado de Gabriela Amaral Almeida para filmar A Sombra do Pai, que seria a estreia em longas da premiada curta-metragista. “Não, vamos fazer outro antes”, avisou a diretora. Luciana topou sem nem saber o que era. A atriz soltou a voz em Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas, e foi a tia carinhosa do adolescente problemático de Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert, mas nada se compara à Sara de O Animal Cordial. E Luciana admite: “Dei tudo o que tinha e quem não gostar é que porque não vai com a minha cara (risos)”.

Como conheceu a Gabriela?

LUCIANA PAES – O curta A Mão Que Afaga foi um dos meus primeiros trabalhos no audiovisual. Meu amigo Eduardo Gomes, que está em quase todos os filmes da Gabriela e vive o ajudante do Irandhir no filme, foi quem fez a ponte. Eu estava em cartaz em uma peça infantil em que fazia uma velha e uma criança, porque era sobre uma menina que vai dormir com 8 anos e acorda com 80. A Gabriela foi assistir e me convidou para fazer o curta. Tivemos uma conexão muito grande. Sei que é um clichê dizer isso, mas ela é uma diretora muito generosa, diz que se o ator estiver ruim, a responsabilidade é dela porque é sua obrigação protegê-lo.

Poderia descrever a Sara?

É louco, porque o que ela faz no filme, na verdade não sabe que vai fazer. O estágio final foi fácil de encontrar, o difícil foi saber que essa mulher entrou de manhã no ônibus sem ter noção do que iria fazer. Não foi nada premeditado e o desafio  foi encontrar esse ponto neutro. A chave do cansaço foi o que me ajudou. Pensei em uma pessoa muito cansada, que está fazendo hora extra… o que é a realidade do Brasil.

Sim, o restaurante é um microcosmo do País.

E as pessoas que trabalham ali já fizeram tudo o que o chefe pediu, inclusive hora extra, e ainda vão pegar três horas de ônibus para voltar para casa. Então me conectei com essa exaustão que a levou a fazer uma escolha ruim, e depois outra escolha ruim, até não ter mais energia para corrigir e provocar uma catástrofe.

É um animal que ela deixa aflorar, um predador.

Sara vai entendendo que o restaurante vira um território sem lei. A questão é: o que nos impede de matar os outros, de fazer o que a gente quer, é uma ética inerente ao ser humano ou o simples fato de ser proibido?

Foi difícil trabalhar com tanto sangue?

A Gabriela cuida muito da ambientação. Nós gravamos em ordem cronológica, o que ajudou demais na relação crescente com o sangue. Ela enxerga a criança má nos seus personagens. Vê a criança machucada e vingativa que tem dentro do Inácio e da Sara. Os adultos ainda estão resolvendo questões infantis, ainda estão brigando pelas figurinhas da Copa (risos).

A relação entre Sara e Inácio começa de patrão e empregado, mas se transforma. Como Murilo Benício lidou com essa sintonia?

Ele tem uma força muito grande nesse lugar do inconsciente. Às vezes fazia coisas que me deixava na dúvida se havia programado ou tinham vindo por instinto. Trabalhamos juntos essa relação em que ele dá muito pouco para a Sara, e ela vai criando dentro de si um mundo expandido. Pega a migalha e faz uma receita.

Precisamos falar sobre a cena de sexo, que não é uma transa, mas um transe.

Fizemos uma coisa coreografada, até para não machucar o Murilo. O cinema às vezes se aproxima mais da dança do que do teatro, e a dança vai para lugares subjetivos com mais tranquilidade. Fizemos um trabalho de vibração, de Kundalini. A gente junta os dois pés e vai abrindo e fechando a perna até começar a sentir um tremor. Aí deixei a vibração emanar. Essa cena no roteiro é linda e descrita como seu fosse dois louva-a-deus. Na natureza, a fêmea come o macho depois, mas no filme eu só lambo (risos). Perguntava para o Murilo se estava tudo ok, porque o sangue grudava e quando eu levantava rápido depilava ele (risos).

 

Publicidade

Deixe o seu Comentário