ENTREVISTAS ESTREIAS

Mãe!: Darren Aronofsky desvenda o enigma

Em recente entrevista à New York Magazine sobre Mãe!o diretor Darren Aronofsky disse: “As pessoas não querem olhar pra mim depois que assistem. Esse filme é como um míssil jogado contra uma parede. Quero que o público esteja preparado para isso e para uma jornada muito intensa”. O aviso está dado.

A grande estreia desta semana e o sétimo longa-metragem de Aronofsky em 20 anos de carreira. Não é muito. Veja bem, não seria muito se fossem produções infantis, comédias ou aventuras. Quem conhece o cinema do nova-iorquino sabe que seus filmes não são passatempo e muito menos de fácil digestão. Mas nem Réquiem Para Um Sonho (2000), Fonte da Vida (2006) e Cisne Negro (2010) alcançam o nível de perturbação provocado por Mãe! , que levou vaias e aplausos no Festival de Veneza.

A sinopse linear é muito simples: Jennifer Lawrence e Javiem Bardem formam o casal que tem a relação testada quando visitantes não convidados chegam em sua casa, interrompendo a existência tranquila. A residência vitoriana fica isolada no campo e o lugar é reformado com todo carinho pela protagonista depois de um incêndio destruídor. Bardem é um poeta cultuado em crise de inspiração e a chegada inesperada do personagem de Ed Harris, um desconhecido, funciona como uma injeção de energia. Em seguida aparece a esposa dele, Michelle Pfeiffer, mulher sensual e misteriosa.

Eles não serão os únicos a dar as caras sem convite e Aronofsky examina a invasão sempre sob a perspectiva de Jennifer, que vê sua casa tomada de assalto por estranhos e não tem seus pedidos de socorro atendidos pelo marido, que parece satisfeito com toda a movimentação. Acredite, é um processo aflitivo, enervante, desesperador, sádico – e aberto a inúmeras interpretações, inclusive políticas.

Durante a coletiva de imprensa realizada em São Paulo nesta terça-feira, 19 de setembro, um simpático Aronofsky deixa muito claro que seu filme é uma alegoria religiosa. “A Mãe que Jennifer personifica é a mãe natureza, que nos dá a vida”, diz. “A questão ambiental é um problema global, mas as pessoas têm dificuldade de entender a gravidade da situação no mundo e costumam se preocupar apenas com o que ocorre em seu país, em sua casa, e a nossa casa no filme é esse elo com o mundo, um microcosmo.”

Se Jennifer é a mãe natureza, Bardem é o criador, enquanto Harris e Michelle são Adão e Eva. Até Caim e Abel entram em cena, na pele dos atores e irmãos Brian e Domhnall Gleeson. Não seria errôneo descrever Jennifer também como a Virgem Maria, mãe de todos. “Meus filmes são pessoais e estou neles. Fui a bailarina em Cisne Negro, o lutador em O Lutador, o conquistador em Fonte da Vida, o  matemático em Pi, mas nunca era eu e sim uma parte de mim que se expande ao ponto de gerar um personagem”, explica. “Desta vez sou mais conectado à protagonista, mas há elementos meus no personagem de Javier Bardem. É a única forma que consigo contar histórias.”

(Mauricio Santana/Getty Images for Paramount Pictures)

Aronofsky conta que escreveu o primeiro rascunho do roteiro em cinco dias e garante que O Bebê de Rosemary não foi uma fonte de inspiração. Sim, porque às tantas a jovem engravida e o filme entra em uma breve fase de calmaria. Pelo menos até o próximo apocalipse que assola a casa. E prepare o estômago. Há cenas chocantes, de embrulhar. “Assim como compositores mergulham em um sentimento e escrevem uma música em um dia, quis seguir essa ideia de me guiar por uma única emoção e escrever a partir dela”, afirma. “Sempre escrevo rápido, mas na medida em que avançamos no projeto a sensação era de acordar, lembrar de um sonho e aos poucos ele se evaporar em nossa mente.”

O diretor foi questionado sobre a ótica política da trama, se os visitantes invasores seriam espelho de refugiados e imigrantes. Ele nega. “Escrevi o roteiro no oitavo ano do governo Obama, em 2015, então é uma coincidência meio trágica que esteje estreando no governo Trump. O filme seria muito mais raivoso se tivesse escrito agora e olha que estava muito bravo e frustrado na época”, revela. “As ações para cuidar do meio ambiente e salvar o planeja estavam em ritmo muito lento, sem grandes avanços. A diferença com Trump é que agora o câncer está exposto. São tempos difíceis.”

Já é mais que sabido que o cineasta e sua estrela engataram um romance nos bastidores e estão juntos. Aronofsky se anima ao falar da parceria com a atriz. “Jennifer se conectou com a ideia de interpretar o espírito de uma casa, de um lar que, assim como nosso planeta, nos recebe e presenteia com toda a sua beleza e recursos”, comenta. “A questão é que ela, a mãe natureza, a Terra, está sendo desrespeitada por habitantes rudes, cruéis, indesejados.”

Para o espectador que ficar até o fim da projeção – pois pode ter certeza de que vai ter gente saindo antes -, Aronofsky ressalta que seu olhar é otimista. “A paixão por trás do filme é a esperança. Acredito que ao mostrar a tragédia é possível revelar a luz. Nossa relação com a mãe natureza não terminou, está sendo escrita e ainda pode ter um final feliz.”

 

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